terça-feira, 29 de outubro de 2013

Escolas públicas alinhadas com o status quo

A escola pública, diferente do que se imagina por ai, ensina perfeitamente o que o aluno deve esperar do mundo lá fora. Há quem diga que a escola da vida é mais real. Mas esta última ainda nos enche de esperanças de um mundo melhor, enquanto a escola pública é palpavelmente realista com a realidade dos seus alunos.
O aluno de escola pública recebe a primeira lição no segundo que pisa pela primeira vez na escola, e nota que ela não é um local que lhe gere afeto. Nesse momento ele recebe a lição de que o que é público é menor, é mal cuidado e não merece respeito. Ora, este mesmo aluno já ouviu falar que se não passar de ano, vai para a escola pública. A lição sobre não cuidar do público continua, quando esse aluno vê depredação, mal uso ou negligência com os equipamentos da escola (carteiras, mesas, quadras, etc.). -Se pode-se quebrar carteiras na escola, pode-se quebrar cadeiras no estádio de futebol, né não?
Passeando pelas bibliotecas da escola, me deparei com um armário, acessível somente para professores cheio de materiais lacrados. Dentre vários volumes importantes, estava a coleção de DVDs completa da série Cosmos, de Carl Sagan (material incrível).  Ao perguntar sobre por que estava lacrado, recebo a informação de que se abrir, vai se perder! E isso vale com centenas de itens, estocados nos depósitos e salas de diretores, que são mais importantes existindo do que sendo úteis. O aluno, quando toma ciência desses materiais, aprende a lição que alguns objetos são mais importantes do que ele, e que a preservação inútil desses objetos garantirá uma melhor avaliação dos gestores da escola, ao invés da utilização e aproveitamento para ensino dos alunos. Não é novidade nas escolas estaduais encontrar computadores e notebooks estocados a mando da diretoria, ou mesmo por falta de quem tome conta! Na minha escola pus 9 notebooks para rodar depois de alguns deles passarem 4 anos dentro de um armário.
Em filas dentro da escola, é comum professores e coordenadores tomarem a frente dos alunos pois são mais atarefados e precisam economizar tempo. Nesse momento o aluno aprende que nem todos são iguais, e que no organograma escolar, os alunos não são prioridade. Essa lição ajuda os alunos a aceitarem o aperto, atrasos e desconforto no ônibus, por exemplo, enquanto são obrigados a assistir o conforto dos carros particulares pela janela.
A desorganização interna também é coisa comum. Seja na marcação e desmarcação de eventos, datas comemorativas, jogos ou qualquer coisa que interfira na vida escolar do aluno, seja na mudança de regras durante eventos, apresentações ou mesmo entre professores e formas de avaliação. A lição aprendida é que as regras mudam, sem porquês nem explicações. Reclamar, questionar ou não acatar só irá prejudicar ainda mais sua vida. É essa regra que cria o gado humano, manobrável e dócil, o mesmo que quando vai num posto de saúde, recebe de orelhas baixas a ordem de que não é ali que ele tem que ir, e sim em um local distante, pouco acessível, e ainda assim sem garantias de que vai encontrar o que procura.
Quando ocorrem furtos dentro da escola, a única punição vista é a do próprio dono do objeto perdido. A diretoria é taxativa em informar que a culpa é do dono do objeto, e sua omissão não é responsabilidade da escola. Quer dizer, o aluno aprende que o ambiente escolar é uma selva, e que ele não deve se enganar pelo sorriso de seus colegas. Eles sorriem somente enquanto não podem tirar vantagem de você. O mesmo vale para o mundo: Seja esperto! Faça com os outros primeiro o que não queria que fizessem com você. É a perpetuação da lei de Gerson, tão danosa para o Brasil.
Respeito ao diferente é algo lindo, mas somente no papel. As inúmeras referências ao cristianismo e aos evangélicos, culminando com aulas que iniciam e terminam com orações, mostra ao aluno que devemos respeitar os outros, desde que eles não sejam muito diferentes de nós. Insinuações sobre outras religiões, principalmente africanas, devem ser evitadas ou feitas pisando em ovos. Afirmar ou incitar o ateísmo é motivo para, no mínimo, maus olhos da direção.
Homossexualismo é tabu e não é. Todo mundo vê, todo mundo sabe, mas não pode falar. Na hora da raiva, o professor pode chamar um aluno de viadinho, desde que esteja protegido na sala dos professores. O comentário é, em geral, recebido com risadas dos seus pares. "Não há" professores homossexuais, porque "obviamente" se afirmar gay é se diminuir. Essa é a lição que fica.
Bons alunos só se esforçam no primeiro semestre. Como no ano anterior esse bom aluno viu colegas dele passando de ano facilmente, ele entende que se esforçar demais é bobagem. Fazer o mínimo para passar está de bom tamanho. Besta é quem se esgoela por algo. É uma meritocracia as avessas, mais uma vez reforçando a atitude de gado humano, pronto para ser tangido por quem vai abate-lo mais tarde.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A ciência não é de direita

Uma colega minha me fez um 'elogio' de falar que, mesmo sendo das exatas, tenho um pensamento de humanas. Legal. Agradeci a fala, mas fiquei encucado com esse pensamento. As ciências exatas são desumanas?
Entre meus colegas (a maioria de humanas) há um preconceito reverso sobre, por exemplo, bolsas de estudo para exatas. Estas são numerosamente maiores comparadas com as humanas. E isso é um fato, e eu estou totalmente a favor deles, achando que esse desequilíbrio de apoio do governo tendendo às exatas é um erro. Porém... a extrapolação dessa revolta causa um preconceito às exatas. Como se todo programador, engenheiro ou geneticista fosse de direita! E não é bem assim.
Creative Commons: Adopt a Negotiator, 2012

Cientistas do mal?!

Um preconceito nasce sutilmente. E hoje, para mim, é notório que há um crescente movimento anti-ciência, atribuindo pensamentos políticos, racistas, tecnocratas, aos que seguem esse rumo. Ex:
  • Preconceito religioso, notório em vários livros e palestras, que mostram que os cientistas afastam você da verdade de deus. 
  • Preconceito esotérico, onde a ciência afasta o homem de uma essência ou de umas energias (termodinâmicaaa?!) vitais. Clamam que as tentativas de comprovação da homeopatia, florais de Bach e reiki falham miseravelmente por conta de um complô mundial. 
  • Preconceito em geral, difundido em geral por pessoas que não foram bem no segundo grau, afirmando que a ciência é incompreensível, e que 'há coisas escondidas por ai'. Acham que todo cientista é bitch de alguma empresa, e seu vilão favorito no cinema é o cientista maluco. 
Mas o mais grave desses pensamentos, a meu ver, é o pensamento esquerdista de que os avanços da ciência, fruto de duas centenas de anos de capitalismo, sejam por isso completamente em prol da viabilidade capitalista. Para esses eu tenho que lembrar: A ciência pura é apolítica
Política é uma coisa humana. Não podemos atribuir um animal como de esquerda ou direita, não é isso? E os elementos? Tem cabimento falar que o carbono é de direita, dada a sua promiscuidade química de se ligar com deus e o mundo por interesse? Claro que não! Isso se dá porque a ciência é algo que existe a margem da humanidade. Existe antes do homem, e com certeza existirá depois que deixarmos de existir. A ciência está na natureza, e é o objetivo do cientista tentar explicar essa natureza, isolando seu lado humano. 
É óbvio que isso não é uma tarefa fácil. Um cientista não consegue deixar de ser humano, então seus estudos, pensamentos e textos estão impregnados de opiniões, julgamentos, orgulho, ego, e quaisquer outras nuances humanas que irão influenciar essa 'ciência'. Porém uma das bases do método científico é que não existe a certeza absoluta, dogmas, etc. Uma explicação é dada como aceita até que se encontre outra melhor. Garanto que essa estratégia de investigação é melhor do que dizer que uma coisa é assim e pronto (como dizem os religiosos, acupunturistas, homeopáticos, astrólogos, gnósticos, e por ai vai). 

Ciência e capitalismo

Sim, fato: Os avanços da ciência não seriam conquistados nessa velocidade se não fosse o capitalismo. Quando penso isso, imagino um homem, sorrindo, esticando sua mão e tocando as estrelas, apoiado em uma pirâmide gigantesca de seres humanos, sendo a base feita de miseráveis com fome. Daria uma boa pintura de mural! Eu, como cientista, não gosto dessa visão. Mas ela é real. Ai vem a pergunta: Vale a pena? Os fins justificam os meios? (quantas vezes me fiz essa pergunta, por tantos assuntos diferentes...).
O que acredito é que existirá um ponto de virada nessa história. E diferente dos marxistas, não acredito que ele virá com uma revolução armada, ou com novos regimes de cima para baixo (ou de baixo para cima!). Hoje acredito na revolução digital, seja ela através da ultra-fragmentação dos meios de produção unida com a ideia do DIY (Do It Yourself), seja ela através da singularidade atingida com a fusão entre homem e máquina. O papel da ciência nisso tudo é dar suporte tecnológico para essa revolução.
Aos que chegaram até aqui no meu texto, e agora me chamam de naiv, devem estar falando: -Nem todo cientista pensa assim. Muitos estão ligados a emrpesas, etc. De fato, muitos não enxergam a grande imagem. Nem pensam nisso. Mas acabam fazendo parte do todo. E esse todo não tem obrigações de pagar favores ao capitalismo. Tanto é que é nesse universo que nasceram as iniciativas de software livre, hardware livre, copyleft e creative commons, essenciais para que ocorra a descentralização dos meios de produção, e principalmente, desecentralização dos conhecimentos de produção. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Uma Breve História de Quase Tudo

O livro de Bill Bryson
Encontrei esse livro na biblioteca da escola pública que leciono. E que achado! Fico muito feliz de encontrar bons materiais de leitura, e saber que eles estão acessíveis aos alunos de escolas públicas. O livro em questão faz parte do projeto PNBEM 2008 do Ministério da Educação.
Como a capa bem informa, o livro aborda do big-bang ao homo sapiens, passando pelo nosso sistema solar (seus mistérios e seus descobridores), pelo universo sub-atômico, pelo desconhecido mundo subterrâneo da Terra, pela vida e evolução, finalizando com a triste realidade das extinções causadas pelo ser humano.
Sou suspeito ao dizer que é uma leitura rápida: As 500 páginas foram devoradas em 2 semanas, com média dedicação. Mas uma coisa torna o livro tão interessante: Os toques de humor e as curiosidades das pessoas que escreveram seu nome na ciência e na história.
Para quem é do meio acadêmico ainda tem um gostinho a mais de comédia ver nomões como Einstein lutando para publicar artigos em periódicos, do mesmo jeito que outros pós-graduandos fazem todos os anos. Uma história contada no livro refere-se ao artigo mais importante da ciência a ter a publicação rejeitada: Lawrence Morley, geólogo canadense, escreveu um artigo sobre o afastamento das costas do Atlântico, que foi sumariamente rejeitado pelo Journal of Geophisical Research e tachado de conversa de coquetel. Drummond Matthews e Fred Vine escreveram a mesma coisa anos depois e foram ovacionados. Vou pensar em Morley da próxima vez que tiver um paper rejeitado também!
A forma que o autor, Bryson, encadeia as histórias me parece tão agradável que acho que o livro seria um ótimo candidato a uma série televisiva sobre ciência, aos moldes de "Cosmos", do inacreditável Carl Sagan.
Tem gente que vai curtir o livro pelas excentricidades e maluquices dos cientistas, tem gente que vai curtir pela ciência pura, e tem gente que deveria curtir e ler para parar de falar besteiras do tipo: Como é que eles sabem que esses ossos tem milhões de anos? Com certeza iria me poupar muita saliva ao conversar com certos tipos religiosos!