segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Revolução digital, Hardware Livre e Socialismo

Todo mundo sabe que o capitalismo tem um problema estrutural grave: sua base de crescimento gera desigualdade, e um dia o sistema entrará em colapso pela gigante diferença entre ricos e pobres. Mas o fim dessa história sempre tem se adiado, dado a criação de novos mecanismos para manter a situação (um deles por exemplo é a economia solidária). Para Karl Marx, um ponto principal para o fim do capitalismo seria a socialização dos meios de produção (fábricas, máquinas, infraestrutura, matéria-prima). Na sua visão, somente assim se eliminaria a propriedade privada, chegando-se a tão sonhada a tão mal-compreendida sociedade socialista.
Porém Marx, vendo a cara feia que você fez ao ler 'fim da propriedade privada' sabendo que haveria resistência a esse fim da propriedade privada, propôs que uma forma de retirar dos ricos e dar aos pobres aos operários seria através de uma Ditadura do Proletariado. Sim, meus caros, para chegar ao socialismo seus pensadores primordiais não encontraram nenhuma outra forma senão o uso da força para tomar posse dos meios de produção. Não é a toa que a ideia não agrade: Regimes ditatoriais, que usaram a força para impor seus ideais, causaram cicatrizes grandes nos medos das pessoas. E quem irá garantir que essa força será "bem usada"?
O que os antigos pensadores do Socialismo (e os novos, pelo que sei) desconhecem é que uma revolução silenciosa já está acontecendo agora, exatamente debaixo de seu nariz: A revolução digital. E ela propõe não que se acabe com a propriedade privada, e sim que o valor dessa propriedade seja jogado a zero!

Livre, leve e solto!

Para compreender essa revolução deve-se antes entender a filosofia do software livre. Neste software, o código fonte (todas as instruções de como o software foi feito) são abertas, e podem ser alteradas, adaptadas e estudadas por todos. Isso imediatamente garante que ninguém pode patentear uma solução, ou seja, ninguém pode ser dono daquele conhecimento sozinho. Outra característica é que a licença do software impõe que qualquer derivado de um software livre é obrigatoriamente software livre. Isso impede que alguém que se beneficiou do trabalho colaborativo depois tranque esse conhecimento. Essas características tornam o software livre uma entidade viral: a medida que soluções patenteadas caem em domínio público e são incorporadas pelos SL's, ou a medida que pesquisadores inovadores lançam suas soluções diretamente para SL, isto garante que boa parte dessas soluções livres estejam acessíveis para todos.
A evolução dessa ideia é a criação e adoção de hardwares livres, ou seja, dispositivos, ferramentas, utensílios que não estão subordinados a nenhuma empresa ou patente, e que podem ser estudados, adaptados e alterados de acordo com as necessidades dos usuários. Vou citar alguns desses hardwares livres e suas utilidades para ver se você leitor capta o meu pensamento:

  • Arduino: Placa de prototipagem eletrônica, de fácil programação, que permite que os usuários criem seus próprios dispositivos, desde geringonças com luzes piscantes até celulares funcionais ou equipamentos de monitoramento de recém-nascidos. 
  • Rep-rap: Impressora 3D, que pode imprimir peças plásticas. Os usos vão desde a impressão de brinquedos simples, fechos de mochilas quebrados, até a impressão de armas de fogo (Liberator) e a impressão de novas impressoras 3D! A parte eletrônica dela usa peças de impressoras recicladas e placas de arduino. Variações dessas impressoras trabalham com metais, madeira, e concreto, sendo possível imprimir uma casa inteira em um dia!
  • Impressão de processadores: Já existem protótipos de impressoras que utilizam materiais semicondutores ao invés de tinta, permitindo que se possa imprimir circuitos computacionais diretamente em uma folha de transparência. Com a devida divulgação dos códigos e padrões dos processadores, um usuário poderia em casa criar novos processadores, ou fazer o upgrade de velocidade de seu computador bastando baixar um arquivo na Internet e imprimir em casa. 
Qual o futuro de tudo isso? Se você conectar todas as ideias, verá que no futuro teremos maquinas auto-replicadoras, que poderão criar objetos completos, funcionais, com poder de processamento. Estou falando em alguém ao precisar de um novo computador, baixar arquivos da Internet e mandar isso para um equipamento que, em algumas horas, entregue um dispositivo funcional! O que a industria de computadores e bens de consumo pode fazer contra? Eu digo: Eles podem fazer exatamente o que a industria fonográfica fez quando as músicas MP3 se alastraram pela Internet: Se espernear como uma criança! Só!
-Opa! Pera-lá! Nem só de industrias vive o capitalismo, sr. Caco Simiano?! É verdade caro amiguinho com a camisa do Chê Guevara! Ainda existe o problema da energia elétrica e da matéria prima, é claro. Mas sobre energia o que posso dizer é que painéis solares são feitos com material semicondutor. E que o silício (o mais famoso dos semicondutores) é somente o segundo material mais abundante na crosta terrestre! Sendo assim, acreditar que possamos levar um baldinho de areia de praia pra casa e imprimir novos painéis solares não é uma maluquice completa.
Sobre outros materiais, penso que se poderemos construir máquinas auto-replicantes, construir máquinas para reciclar materiais deve ser de alguma forma viável em algum nível. Porém o grande poder de você adaptar suas máquinas é o de utilizar materiais que estejam a mão na ocasião ou local. Imagino máquinas de imprimir casas adaptadas aos materiais, clima e necessidades da região, porém todas usando as mesmas bases livres de hardware e software. 
É certo que enquanto não inventarem alguma forma de sintetizar átomos, a mineração de metais raros ainda será necessária para tudo. Ai talvez o estado precise estar presente. Mas isto é só mais um elemento desse futuro próximo, que está mais perto do que muita gente imagina!

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