quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O neo-ateismo e a crítica dos religiosos

Em 28 de dezembro de 2012 a adolescente Roberta Baêta, 19 anos, suicidou-se. O fato repercutiu muito no Facebook, não por ser um suicídio de adolescente (a 3ª maior causa de morte de adolescentes no Brasil), mas por ela ser uma ateia ativista, e por ter culpado a perseguição à sua opção como causa da sua desistência da vida. O evento iniciou uma pequena guerra nas redes sociais, entre religiosos e ateus. Perfis pró-ateísmo passaram a divulgar com mais frequência tirinhas com brincadeiras (algumas bem pesadas) contra religiosos ou entidades religiosas (especialmente evangélicos e muçulmanos, os mais radicais). Floresceram também perfis anti-neo-ateísmo, alegando que essa onda de novos ateus é uma moda, e que muitos desses adolescentes entram na onda para cumprir o protocolo padrão adolescente de se revoltar contra os pais. Ser contra a religião dos pais seria uma boa estratégia.

O pior de tudo é que tenho que concordar um pouco com a crítica. O perfil da ATEA no Facebook (associação da qual apoio e sou membro pagador) costuma replicar depoimentos, a maioria de adolescentes, sobre sua descoberta do ateísmo, e suas revoltas para com os pais, em geral. Não que eu não concorde que devemos lutar contra a alienação de muitas religiões. Mas é difícil ler depoimentos de pré-adolescentes afirmando que são ateus desde criança. Tem algo estranho ai. É como tentar admirar a poesia de uma criança: Você acha bonitinho, mas sabe que a criança não tem profundidade de sentimentos e experiências para tornar o texto sincero.

Ateísmo não é religião, e nem mesmo é um pensamento uniforme. E por isso não tem um guia, um livro ou um líder  O que temos são personalidades, algumas bem agressivas (como Dawkins), outras mais pacatas (como Botton), além da sempre comum lista de celebridades, como Angelina Jolie, Brad Pit, Charles Chaplin, Darwin, Voltaire, Einstein, etc. São muitos pensamentos diferentes para serem defendidos com fervor. Alias, fervor é uma palavra que combina muito mais com fé do que com dúvida (a base de todo o pensamento ateu ou agnóstico).

Como nasce um ateu?

Antes de ser um ateu, uma pessoa deve ser cientista. Deve se perguntar das coisas, e usar o conhecimento acumulado para tentar derivar respostas. Felizmente todos nós viramos cientistas quando temos 4 anos! É a época dos 'porques', que tanto dificultam a vida de certos pais. Lembro que, quando criança, havia formulado a hipótese de que as ondas do mar eram feitas pelas baleias, pois o 'vento' (a explicação standard da escola) não me satisfazia. Afinal eu não conseguia fazer ondas similares às do mar soprando em um balde. O que é isso, senão o método científico? Tinha uma explicação 'goela abaixo' não satisfatória, tinha um experimento em escala (o balde!) e tinha uma hipótese. Obviamente estava errado, até o dia em que entendi as correntes marinhas derivadas da evaporação do mar, com consequência o vento.

Com o tempo os adultos vão estragando moldando essas crianças, incluindo respostas prontas que não cabem questionamento. É a doutrinação da religião. Poucos sobrevivem. As cicatrizes das respostas prontas  são profundas demais, e muitas vezes são mais adequadas a um mundo desigual. As explicações da desigualdade social, por exemplo, são muito complexas para uma criança de 10 anos, então dizer que 'foi deus quem quis', ou 'que é a nossa cruz' parecem respostas satisfatórias para a idade.

Então: Não creio que possa existir um pré-adolescente ateu porque as explicações do mundo são muito complexas para essa idade. E se ele se diz ateu, é porque está crendo de que aquele pensamento é o correto. E crer é exatamente o que um ateu não deve fazer!

Religião para Ateus!? Pode isso, Arnaldo?

Religião para Ateus
Religião para Ateus, de Alain de Botton
Olha, a regra é clara: Ateísmo não é religião. Mas o filósofo Alain de Botton fez um trabalho muito bom ao mostrar a importância de vários elementos da religião para a sociedade. 

Um exemplo dele critica as universidades: Estas não criam cidadãos melhores, e sim pessoas com uma expertise em uma área. Você não sai um ser humano melhor da Universidade (se não era bom antes, talvez saia até pior!). A igreja te-o-ri-ca-men-te traz valores e rituais que deveriam engrandecer o zeitgeist. Na visão do autor, então, parte da experiência universitária deveria ser enriquecida com mais filosofia, sociologia, etc. 

A questão dos rituais, eu sei, geram um frio na espinha de muita gente. Porém, ao retirar-se a capa de religiosidade da palavra, os rituais são marcos na vida, e são importantes para assentar evoluções da pessoa. Cerimonias como casamentos, aniversários, formaturas, bar mitzvah's e festas de 15 anos, todos são marcos que tornam nossa vida menos monótona e com um sentido a mais de realização. Mesmo ritualísticas mais comuns, como missas, cultos e datas festivas como o natal teriam como benefício uma forma de reencontro com seus próximos, e um obrigatório reencontro com seus valores, em tese

O livro tem partes que fariam Darwin se remexer no túmulo, mas ainda assim é uma leitura válida. Ele ajuda a questionar certos 'ditos populares', repetidos à exaustidão por nós colegas ateus e agnósticos contra as investidas dos religiosos. E se você é ateu mesmo, não pode deixar nunca de ler algo que possa mudar sua forma de pensar, não é mesmo!?

2 comentários:

  1. Tudo bem dizer que não gosta de deus, da biblia ou da igreja ! é uma opnião e gosto pessoal ! agora dai concluir que deus não existe ou que a biblia é uma lenda é não somente um absurdo como culme da ignorancia aberta e publica mas tambem um total falta de moral, ética e respeito ! Cada um com o seu ! respeitando os demais, como fez filosofos como Kant e Nietszche, como fez cientistas como Newton e Eisten ou como fez Jesus com os rabinos ! Nunca devemos misturar respeito, ciencia e teologia, cada um tem seu propósito maior !

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    1. Gerson, obrigado pelo comentário. Porém não concordo com ele. Veja: Eu não posso dizer que não gosto de bruguzumba, porque isto não existe. Se em minhas leituras e reflexões eu cheguei a conclusão de que não existe deus, eu tenho o direito de me expressar sim. Eu não fui ao seu blog tentar lhe convencer, você veio ao meu. Mas se você estiver aberto a entender meu pensamento, asista primeiro a este vídeo curto http://youtu.be/eU1SGf6cHmw e depois leia 'Deus, um delírio' de Dawkins.

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