terça-feira, 29 de outubro de 2013

Escolas públicas alinhadas com o status quo

A escola pública, diferente do que se imagina por ai, ensina perfeitamente o que o aluno deve esperar do mundo lá fora. Há quem diga que a escola da vida é mais real. Mas esta última ainda nos enche de esperanças de um mundo melhor, enquanto a escola pública é palpavelmente realista com a realidade dos seus alunos.
O aluno de escola pública recebe a primeira lição no segundo que pisa pela primeira vez na escola, e nota que ela não é um local que lhe gere afeto. Nesse momento ele recebe a lição de que o que é público é menor, é mal cuidado e não merece respeito. Ora, este mesmo aluno já ouviu falar que se não passar de ano, vai para a escola pública. A lição sobre não cuidar do público continua, quando esse aluno vê depredação, mal uso ou negligência com os equipamentos da escola (carteiras, mesas, quadras, etc.). -Se pode-se quebrar carteiras na escola, pode-se quebrar cadeiras no estádio de futebol, né não?
Passeando pelas bibliotecas da escola, me deparei com um armário, acessível somente para professores cheio de materiais lacrados. Dentre vários volumes importantes, estava a coleção de DVDs completa da série Cosmos, de Carl Sagan (material incrível).  Ao perguntar sobre por que estava lacrado, recebo a informação de que se abrir, vai se perder! E isso vale com centenas de itens, estocados nos depósitos e salas de diretores, que são mais importantes existindo do que sendo úteis. O aluno, quando toma ciência desses materiais, aprende a lição que alguns objetos são mais importantes do que ele, e que a preservação inútil desses objetos garantirá uma melhor avaliação dos gestores da escola, ao invés da utilização e aproveitamento para ensino dos alunos. Não é novidade nas escolas estaduais encontrar computadores e notebooks estocados a mando da diretoria, ou mesmo por falta de quem tome conta! Na minha escola pus 9 notebooks para rodar depois de alguns deles passarem 4 anos dentro de um armário.
Em filas dentro da escola, é comum professores e coordenadores tomarem a frente dos alunos pois são mais atarefados e precisam economizar tempo. Nesse momento o aluno aprende que nem todos são iguais, e que no organograma escolar, os alunos não são prioridade. Essa lição ajuda os alunos a aceitarem o aperto, atrasos e desconforto no ônibus, por exemplo, enquanto são obrigados a assistir o conforto dos carros particulares pela janela.
A desorganização interna também é coisa comum. Seja na marcação e desmarcação de eventos, datas comemorativas, jogos ou qualquer coisa que interfira na vida escolar do aluno, seja na mudança de regras durante eventos, apresentações ou mesmo entre professores e formas de avaliação. A lição aprendida é que as regras mudam, sem porquês nem explicações. Reclamar, questionar ou não acatar só irá prejudicar ainda mais sua vida. É essa regra que cria o gado humano, manobrável e dócil, o mesmo que quando vai num posto de saúde, recebe de orelhas baixas a ordem de que não é ali que ele tem que ir, e sim em um local distante, pouco acessível, e ainda assim sem garantias de que vai encontrar o que procura.
Quando ocorrem furtos dentro da escola, a única punição vista é a do próprio dono do objeto perdido. A diretoria é taxativa em informar que a culpa é do dono do objeto, e sua omissão não é responsabilidade da escola. Quer dizer, o aluno aprende que o ambiente escolar é uma selva, e que ele não deve se enganar pelo sorriso de seus colegas. Eles sorriem somente enquanto não podem tirar vantagem de você. O mesmo vale para o mundo: Seja esperto! Faça com os outros primeiro o que não queria que fizessem com você. É a perpetuação da lei de Gerson, tão danosa para o Brasil.
Respeito ao diferente é algo lindo, mas somente no papel. As inúmeras referências ao cristianismo e aos evangélicos, culminando com aulas que iniciam e terminam com orações, mostra ao aluno que devemos respeitar os outros, desde que eles não sejam muito diferentes de nós. Insinuações sobre outras religiões, principalmente africanas, devem ser evitadas ou feitas pisando em ovos. Afirmar ou incitar o ateísmo é motivo para, no mínimo, maus olhos da direção.
Homossexualismo é tabu e não é. Todo mundo vê, todo mundo sabe, mas não pode falar. Na hora da raiva, o professor pode chamar um aluno de viadinho, desde que esteja protegido na sala dos professores. O comentário é, em geral, recebido com risadas dos seus pares. "Não há" professores homossexuais, porque "obviamente" se afirmar gay é se diminuir. Essa é a lição que fica.
Bons alunos só se esforçam no primeiro semestre. Como no ano anterior esse bom aluno viu colegas dele passando de ano facilmente, ele entende que se esforçar demais é bobagem. Fazer o mínimo para passar está de bom tamanho. Besta é quem se esgoela por algo. É uma meritocracia as avessas, mais uma vez reforçando a atitude de gado humano, pronto para ser tangido por quem vai abate-lo mais tarde.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A ciência não é de direita

Uma colega minha me fez um 'elogio' de falar que, mesmo sendo das exatas, tenho um pensamento de humanas. Legal. Agradeci a fala, mas fiquei encucado com esse pensamento. As ciências exatas são desumanas?
Entre meus colegas (a maioria de humanas) há um preconceito reverso sobre, por exemplo, bolsas de estudo para exatas. Estas são numerosamente maiores comparadas com as humanas. E isso é um fato, e eu estou totalmente a favor deles, achando que esse desequilíbrio de apoio do governo tendendo às exatas é um erro. Porém... a extrapolação dessa revolta causa um preconceito às exatas. Como se todo programador, engenheiro ou geneticista fosse de direita! E não é bem assim.
Creative Commons: Adopt a Negotiator, 2012

Cientistas do mal?!

Um preconceito nasce sutilmente. E hoje, para mim, é notório que há um crescente movimento anti-ciência, atribuindo pensamentos políticos, racistas, tecnocratas, aos que seguem esse rumo. Ex:
  • Preconceito religioso, notório em vários livros e palestras, que mostram que os cientistas afastam você da verdade de deus. 
  • Preconceito esotérico, onde a ciência afasta o homem de uma essência ou de umas energias (termodinâmicaaa?!) vitais. Clamam que as tentativas de comprovação da homeopatia, florais de Bach e reiki falham miseravelmente por conta de um complô mundial. 
  • Preconceito em geral, difundido em geral por pessoas que não foram bem no segundo grau, afirmando que a ciência é incompreensível, e que 'há coisas escondidas por ai'. Acham que todo cientista é bitch de alguma empresa, e seu vilão favorito no cinema é o cientista maluco. 
Mas o mais grave desses pensamentos, a meu ver, é o pensamento esquerdista de que os avanços da ciência, fruto de duas centenas de anos de capitalismo, sejam por isso completamente em prol da viabilidade capitalista. Para esses eu tenho que lembrar: A ciência pura é apolítica
Política é uma coisa humana. Não podemos atribuir um animal como de esquerda ou direita, não é isso? E os elementos? Tem cabimento falar que o carbono é de direita, dada a sua promiscuidade química de se ligar com deus e o mundo por interesse? Claro que não! Isso se dá porque a ciência é algo que existe a margem da humanidade. Existe antes do homem, e com certeza existirá depois que deixarmos de existir. A ciência está na natureza, e é o objetivo do cientista tentar explicar essa natureza, isolando seu lado humano. 
É óbvio que isso não é uma tarefa fácil. Um cientista não consegue deixar de ser humano, então seus estudos, pensamentos e textos estão impregnados de opiniões, julgamentos, orgulho, ego, e quaisquer outras nuances humanas que irão influenciar essa 'ciência'. Porém uma das bases do método científico é que não existe a certeza absoluta, dogmas, etc. Uma explicação é dada como aceita até que se encontre outra melhor. Garanto que essa estratégia de investigação é melhor do que dizer que uma coisa é assim e pronto (como dizem os religiosos, acupunturistas, homeopáticos, astrólogos, gnósticos, e por ai vai). 

Ciência e capitalismo

Sim, fato: Os avanços da ciência não seriam conquistados nessa velocidade se não fosse o capitalismo. Quando penso isso, imagino um homem, sorrindo, esticando sua mão e tocando as estrelas, apoiado em uma pirâmide gigantesca de seres humanos, sendo a base feita de miseráveis com fome. Daria uma boa pintura de mural! Eu, como cientista, não gosto dessa visão. Mas ela é real. Ai vem a pergunta: Vale a pena? Os fins justificam os meios? (quantas vezes me fiz essa pergunta, por tantos assuntos diferentes...).
O que acredito é que existirá um ponto de virada nessa história. E diferente dos marxistas, não acredito que ele virá com uma revolução armada, ou com novos regimes de cima para baixo (ou de baixo para cima!). Hoje acredito na revolução digital, seja ela através da ultra-fragmentação dos meios de produção unida com a ideia do DIY (Do It Yourself), seja ela através da singularidade atingida com a fusão entre homem e máquina. O papel da ciência nisso tudo é dar suporte tecnológico para essa revolução.
Aos que chegaram até aqui no meu texto, e agora me chamam de naiv, devem estar falando: -Nem todo cientista pensa assim. Muitos estão ligados a emrpesas, etc. De fato, muitos não enxergam a grande imagem. Nem pensam nisso. Mas acabam fazendo parte do todo. E esse todo não tem obrigações de pagar favores ao capitalismo. Tanto é que é nesse universo que nasceram as iniciativas de software livre, hardware livre, copyleft e creative commons, essenciais para que ocorra a descentralização dos meios de produção, e principalmente, desecentralização dos conhecimentos de produção. 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Uma Breve História de Quase Tudo

O livro de Bill Bryson
Encontrei esse livro na biblioteca da escola pública que leciono. E que achado! Fico muito feliz de encontrar bons materiais de leitura, e saber que eles estão acessíveis aos alunos de escolas públicas. O livro em questão faz parte do projeto PNBEM 2008 do Ministério da Educação.
Como a capa bem informa, o livro aborda do big-bang ao homo sapiens, passando pelo nosso sistema solar (seus mistérios e seus descobridores), pelo universo sub-atômico, pelo desconhecido mundo subterrâneo da Terra, pela vida e evolução, finalizando com a triste realidade das extinções causadas pelo ser humano.
Sou suspeito ao dizer que é uma leitura rápida: As 500 páginas foram devoradas em 2 semanas, com média dedicação. Mas uma coisa torna o livro tão interessante: Os toques de humor e as curiosidades das pessoas que escreveram seu nome na ciência e na história.
Para quem é do meio acadêmico ainda tem um gostinho a mais de comédia ver nomões como Einstein lutando para publicar artigos em periódicos, do mesmo jeito que outros pós-graduandos fazem todos os anos. Uma história contada no livro refere-se ao artigo mais importante da ciência a ter a publicação rejeitada: Lawrence Morley, geólogo canadense, escreveu um artigo sobre o afastamento das costas do Atlântico, que foi sumariamente rejeitado pelo Journal of Geophisical Research e tachado de conversa de coquetel. Drummond Matthews e Fred Vine escreveram a mesma coisa anos depois e foram ovacionados. Vou pensar em Morley da próxima vez que tiver um paper rejeitado também!
A forma que o autor, Bryson, encadeia as histórias me parece tão agradável que acho que o livro seria um ótimo candidato a uma série televisiva sobre ciência, aos moldes de "Cosmos", do inacreditável Carl Sagan.
Tem gente que vai curtir o livro pelas excentricidades e maluquices dos cientistas, tem gente que vai curtir pela ciência pura, e tem gente que deveria curtir e ler para parar de falar besteiras do tipo: Como é que eles sabem que esses ossos tem milhões de anos? Com certeza iria me poupar muita saliva ao conversar com certos tipos religiosos!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A complexidade do mundo beirando o colapso

Livro de John Casti
Existe um programa no canal National Geographic chamado Preparados para o fim, que mostra pessoas que acreditam que estamos a beira de um colapso, e estão se preparando para viverem mesmo que a sociedade moderna não resista. Acredito que boa parte da audiência assista pela curiosidade de ver alguns birutas acumulando água e armas, e devem achar esse povo igual a de outros programas toscos curiosos, como os acumuladores, ou tabu.
Porém se você ler esse livro do economista John Casti, "O colapso de tudo", vai ver que existe uma ponta de razão para se preocupar.
O livro mostra 11 eventos X que podem transformar o mundo moderno em pouco tempo (meses ou mesmo dias). Alguns são bem abordados, como a questão do colapso do abastecimento de água e comida; outros são passados tão por cima que talvez nem valessem a menção, como o fim do capitalismo e a poluição das nanopartículas.
O fato do autor ser um economista tem pontos negativos e positivos. Negativo primeiramente porque em certas partes do livro (principalmente a parte I e III) o blábláblá economicês cansa o leitor. Casti tenta pintar toda a base do cenário para as catástrofes, mas em geral deixa é o leitor frustrado recebendo uma aula de economia quando na verdade ele queria era ver um filme catástrofe. Porém como ponto positivo está a análise dele de que a complexidade mundial e o emaranhando de sistemas são nosso maior problema.

Tudo junto e misturado

Para almoçar, sua comida foi feita com ingredientes que vieram de vários locais diferentes, alguns de outros continentes, inclusive. Todo esse transporte precisou de combustível fóssil. A água usada no preparo da comida, nas grandes metrópoles, vem de reservatórios muito distantes, e é bombeada usando energia elétrica. Essa energia é gerada em termoelétricas (combustível fóssil), hidrelétricas (passando por longas torres de transmissão), e pouca coisa é gerada via ventos ou sol. Toda essa distância necessita de comunicação, feita através de redes computadorizadas, criadas com computadores montados com elementos tão distintos (ouro, cobre, tálio, silício, lítio, índio, estanho) que seria impossível fabricá-los usando matéria prima puramente local. Nessas redes já não correm mais só informações, mas sim nosso dinheiro, mantendo em um equilíbrio pouco estável toda a economia de todos os países. Tudo isso, trabalhando em conjunto como peças de um dominó. Tão próximas e tão interligadas que já não se sabe onde começa e onde termina um processo. Tão complexas.
Basta um evento X para que todos nossos sistemas colapsem
Olhando o mundo assim há de se dar razão aos lelés sábios personagens do programa sobre catástrofes. Irracional somos nós, que individualmente não nos alertamos que não sabemos plantar nada, não sabemos encontrar água, não estamos preparados para coletar energia da natureza, nem temos meios de garantir nossa segurança, comércio e comunicação senão através do emaranhado de sistemas da vida moderna.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Revolução digital, Hardware Livre e Socialismo

Todo mundo sabe que o capitalismo tem um problema estrutural grave: sua base de crescimento gera desigualdade, e um dia o sistema entrará em colapso pela gigante diferença entre ricos e pobres. Mas o fim dessa história sempre tem se adiado, dado a criação de novos mecanismos para manter a situação (um deles por exemplo é a economia solidária). Para Karl Marx, um ponto principal para o fim do capitalismo seria a socialização dos meios de produção (fábricas, máquinas, infraestrutura, matéria-prima). Na sua visão, somente assim se eliminaria a propriedade privada, chegando-se a tão sonhada a tão mal-compreendida sociedade socialista.
Porém Marx, vendo a cara feia que você fez ao ler 'fim da propriedade privada' sabendo que haveria resistência a esse fim da propriedade privada, propôs que uma forma de retirar dos ricos e dar aos pobres aos operários seria através de uma Ditadura do Proletariado. Sim, meus caros, para chegar ao socialismo seus pensadores primordiais não encontraram nenhuma outra forma senão o uso da força para tomar posse dos meios de produção. Não é a toa que a ideia não agrade: Regimes ditatoriais, que usaram a força para impor seus ideais, causaram cicatrizes grandes nos medos das pessoas. E quem irá garantir que essa força será "bem usada"?
O que os antigos pensadores do Socialismo (e os novos, pelo que sei) desconhecem é que uma revolução silenciosa já está acontecendo agora, exatamente debaixo de seu nariz: A revolução digital. E ela propõe não que se acabe com a propriedade privada, e sim que o valor dessa propriedade seja jogado a zero!

Livre, leve e solto!

Para compreender essa revolução deve-se antes entender a filosofia do software livre. Neste software, o código fonte (todas as instruções de como o software foi feito) são abertas, e podem ser alteradas, adaptadas e estudadas por todos. Isso imediatamente garante que ninguém pode patentear uma solução, ou seja, ninguém pode ser dono daquele conhecimento sozinho. Outra característica é que a licença do software impõe que qualquer derivado de um software livre é obrigatoriamente software livre. Isso impede que alguém que se beneficiou do trabalho colaborativo depois tranque esse conhecimento. Essas características tornam o software livre uma entidade viral: a medida que soluções patenteadas caem em domínio público e são incorporadas pelos SL's, ou a medida que pesquisadores inovadores lançam suas soluções diretamente para SL, isto garante que boa parte dessas soluções livres estejam acessíveis para todos.
A evolução dessa ideia é a criação e adoção de hardwares livres, ou seja, dispositivos, ferramentas, utensílios que não estão subordinados a nenhuma empresa ou patente, e que podem ser estudados, adaptados e alterados de acordo com as necessidades dos usuários. Vou citar alguns desses hardwares livres e suas utilidades para ver se você leitor capta o meu pensamento:

  • Arduino: Placa de prototipagem eletrônica, de fácil programação, que permite que os usuários criem seus próprios dispositivos, desde geringonças com luzes piscantes até celulares funcionais ou equipamentos de monitoramento de recém-nascidos. 
  • Rep-rap: Impressora 3D, que pode imprimir peças plásticas. Os usos vão desde a impressão de brinquedos simples, fechos de mochilas quebrados, até a impressão de armas de fogo (Liberator) e a impressão de novas impressoras 3D! A parte eletrônica dela usa peças de impressoras recicladas e placas de arduino. Variações dessas impressoras trabalham com metais, madeira, e concreto, sendo possível imprimir uma casa inteira em um dia!
  • Impressão de processadores: Já existem protótipos de impressoras que utilizam materiais semicondutores ao invés de tinta, permitindo que se possa imprimir circuitos computacionais diretamente em uma folha de transparência. Com a devida divulgação dos códigos e padrões dos processadores, um usuário poderia em casa criar novos processadores, ou fazer o upgrade de velocidade de seu computador bastando baixar um arquivo na Internet e imprimir em casa. 
Qual o futuro de tudo isso? Se você conectar todas as ideias, verá que no futuro teremos maquinas auto-replicadoras, que poderão criar objetos completos, funcionais, com poder de processamento. Estou falando em alguém ao precisar de um novo computador, baixar arquivos da Internet e mandar isso para um equipamento que, em algumas horas, entregue um dispositivo funcional! O que a industria de computadores e bens de consumo pode fazer contra? Eu digo: Eles podem fazer exatamente o que a industria fonográfica fez quando as músicas MP3 se alastraram pela Internet: Se espernear como uma criança! Só!
-Opa! Pera-lá! Nem só de industrias vive o capitalismo, sr. Caco Simiano?! É verdade caro amiguinho com a camisa do Chê Guevara! Ainda existe o problema da energia elétrica e da matéria prima, é claro. Mas sobre energia o que posso dizer é que painéis solares são feitos com material semicondutor. E que o silício (o mais famoso dos semicondutores) é somente o segundo material mais abundante na crosta terrestre! Sendo assim, acreditar que possamos levar um baldinho de areia de praia pra casa e imprimir novos painéis solares não é uma maluquice completa.
Sobre outros materiais, penso que se poderemos construir máquinas auto-replicantes, construir máquinas para reciclar materiais deve ser de alguma forma viável em algum nível. Porém o grande poder de você adaptar suas máquinas é o de utilizar materiais que estejam a mão na ocasião ou local. Imagino máquinas de imprimir casas adaptadas aos materiais, clima e necessidades da região, porém todas usando as mesmas bases livres de hardware e software. 
É certo que enquanto não inventarem alguma forma de sintetizar átomos, a mineração de metais raros ainda será necessária para tudo. Ai talvez o estado precise estar presente. Mas isto é só mais um elemento desse futuro próximo, que está mais perto do que muita gente imagina!

terça-feira, 16 de julho de 2013

Economia Solidária (ou Capitalismo para pobres)

Encaixe-se no sistema, por favor!
Ah essas soluções mirabolantes! Essas... que parece que você tá ajudando, só que não! Assim é a economia solidária, a meu ver. E o pior de tudo é o alarde positivo sobre o assunto, e pior ainda é a idolatria aos beneficiados lutadores da ideia.
Trabalhei dois anos junto a comunidades carentes do interior do meu estado como consultor administrativo. O pedido da secretaria de Ação Social era: Utilize o programa de economia solidária para alavancar a comunidade! E assim fui. Foram meses de luta, conversas, capacitações, análises de mercado, custos, preços e produtos. E no final aconteceu o inesperado: A comunidade me convenceu de que ela não precisava ser alavancada!

Progresso pra que(m)?

Afinal, quem foi que disse que temos que correr atrás de dinheiro a todo custo? Onde foi que nos convenceram de que é um bom negócio vender nossa juventude, saúde e bem-estar por um punhado de papel? Será que precisamos mesmo de tudo isso? Será que dá para dizer: -Não, obrigado?
Alguém pode dizer que dinheiro traz felicidade, saúde e bem estar. Mas quanto de felicidade, saúde, e bem-estar precisam ser gastos para gerar dinheiro suficiente para se ter felicidade, saúde, e bem-estar?
Manual do Funcionário Capitalista
A economia solidária nada mais é do que uma tentativa de resgatar as engrenagens soltas da máquina capitalista e tentar reencaixá-las no sistema. Na grande maioria é financiada pelo poder público, gera custos operacionais (que são abocanhados pelos, ohh!, idealizadores), e tentam forçar pessoas que vivem suficientemente bem a 'entrar na roda'.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Homeopatia, ombro amigo e free-hug

Copio aqui o excelente texto/post de Suzana Herculano-Houzel sobre homeopatia. Assino embaixo!

"Aos que dizem "homeopatia funcionou comigo, portanto ela funciona, portanto cientistas que tentam desacreditar a homeopatia não sabem do que estão falando e deveriam se informar melhor": a homeopatia "funciona" como placebo, e portanto exatamente tão bem quanto um placebo. Placebos são substâncias inertes que, ao serem administradas como remédios, fazem a pessoa se sentir melhor - como se ela tivesse sido medicada. Placebos aliviam vários problemas, sim, sobretudo aqueles baseados em estresse/ansiedade.

Acreditar em efeito placebo é reconhecer a evidência científica de que (1) o cérebro às vezes contorna seus próprios problemas só de acreditar que eles têm saída e (2) o sistema imunitário do corpo funciona bem o suficiente para várias vezes conseguir debelar sozinho infecções urinárias, princípios de pneumonia e afins. Isso pode até acontecer APESAR da homeopatia (leia-se falta de tratamento medicamentoso). Tratar com placebo = colocar bolinhas de açúcar na boca pode bastar para aliviar várias pequenas aflições em bebês, cachorros & outros bichos. Lembrem que o "tratamento" nesses casos costuma vir com colinho, carinho, afagos - que tratam muito mais do que qualquer resquício de molécula que já não está mais lá.

Aliás, um estudo sen-sa-ci-o-nal mostrou que um ATOR que se comporta como médico é capaz de fazer seus pacientes se sentirem melhor. Assim o homeopata "trata" seus pacientes: ao ouvi-los, perguntar se gostam de comida doce ou salgada, quantas horas dorme - ou seja, ao dar atenção, acalmar, e colocar bolinhas de açúcar em sua boca.

Se funciona? Tanto quanto qualquer outro placebo, e portanto até que bem para aflições de fundo ansioso. Se funciona do jeito que Hanneman dizia? Certamente não - a não ser que TODA nossa química e farmacologia estejam erradas. Portanto, homeopatia é remédio? Não é. Muito menos "medicina". Ou, dizendo de outro modo: é tão medicina quanto abrir uma banquinha na esquina vendendo abraços ou passes mágicos - ou, o que vai soar um pouco melhor, dar atenção para uma pessoa querida que precisa de cuidados.

Se você chegou aqui e está querendo me cobrar "evidências": elas não faltam. Até wikipedia serve. É só querer ler um pouquinho."

Em outras palavras... senta aqui, fala ai e toma uma água, que melhora! :)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Seca e tecnologia

Indícios meteorológicos de 2012/2013 indicam que o nordeste brasileiro irá enfrentar uma das maiores secas que já viu. A estação de chuvas de 2013 já passou, e o cenário já é ruim: Plantações perdidas, gado morrendo de sede e fome por falta de pasto, e aumento de índice de suicídios (informação que não é repassada pelo governo estadual, mas é verídica). Agora que o segundo semestre se aproxima, o cenário só tende a piorar.
O mais ridículo nessa história toda é que o problema é mais antigo que o Brasil. Ainda na época de colônia já havia a necessidade de obras contra a seca. Um exemplo é o açude do Cedro, ordenado por Dom Pedro II, e construído entre 1890 e 1906. Então nos vêm uma questão: Será que com mais de 150 anos de luta contra a seca, ela continua ganhando?

Indústria da seca

O que uma grande maioria talvez não saiba é que, para políticos corruptos, quando uma região sofre calamidades, isso gera ajuda financeira que beneficia esses grupos. Em calamidades, recursos são liberados mais rapidamente, os controles destes são mais frouxos, e há muito mais chance de você "ganhar seu quinhão" no bolo. Obviamente esse 'todo mundo' não inclui o sertanejo que sofre da seca.
A ajuda que chega também não serve de muito. São carros-pipa carregados de água para subsistência da população, mas que não dá para irrigar nada, nem dá para manter animais de criação. Ou são sementes subsidiadas para plantio, mas que não irão render nada, já que no atual cenário não adianta plantar: Os indícios mostram que sem um plano a longo prazo de irrigação, tudo que plantar morrerá.

Achando água em Marte no Sertão

A seca é o tipo de problema que tem alguém que ganha com ele. Contra esses problemas a iniciativa pública é ineficiente. Mas tecnologia e educação aplicadas diretamente pela população pode mudar o cenário. Tecnologias livres podem encontrar o seu papel na luta contra a seca. E não estou falando em computadores com linux em telecentros. Isso é idiotice e não adianta de nada! Estou falando em utilizar várias características do próprio sertão para lutar contra a seca.
Um exemplo é o Sol. O sertão tem sol o ano todo, e sua trajetória no céu é bastante estável, dada a proximidade com o equador. Significa que energia não deveria ser problema. E não estou só falando em paineis solares fotovoltáticos bombeando água de poços (que são uma boa ideia), mas em utilizar a luz solar para destilar água salobra desses poços (um problema muito comum na região).
Enfim, que tecnologias devem ser desenvolvidas para que tenhamos água no sertão? Estamos precisando mais de água aqui do que em Marte, por enquanto.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

DIY ou Faça você mesmo!

Outro dia vi um blog de um cara que fez na garagem de casa um carro esporte (link aqui). E nem era um carro simples, ou elétrico, e sim um putcha roadster que rivaliza com porsches e ferraris! Quanto mais eu via as fotos, mais eu pensava: -Deve ser muito tempo livre! O tal carro foi feito com peças de sucata (!?) e vai de zero a 100 em 6,5 segundos. Uma versão nacional de um carro caseiro recentemente também saiu nos jornais. É o Caveirão, feito pelo agricultor Areudo Rodrigues (link aqui). Feito de madeira e sucata (plausível!), ele não alcança 100km/h porque usa motor de motocicleta.
Carros caseiros. O americano Ariel Atom, e o cearense Caveirão.
Os projetos tem suas diferenças são muito diferentes, mas ambos trazem um ponto inicial muito forte: A capacidade de criar com as próprias mãos. Eu sei que a versão brasileira parece um brinquedo, comparando as fotos. Mas o Areudo está de parabéns, por ter tirado a bunda da cadeira e ter tido a coragem de terminar seu feito.

"Sem saber que era impossível, foi lá e fez"

Uma impressão que tenho desse novo milênio é que cada vez temos mais tecnologia e cada vez menos fazemos nossas próprias coisas. É até irônico ver o que ocorreu com a computação: Antigamente existiam pouquíssimos computadores, e todos os usuários sabiam programar (ou pelo menos entravam em contato com o código-fonte dos programas). Hoje os computadores invadiram todos os cantos possíveis, chegando a ser comum uma casa ter um computador por habitante (ou até mais). Mas esses computadores estão todos servindo de acesso ao Facebook, e uma parcela mínima ínfima programa suas próprias soluções. 
Não precisa ir muito longe para constatar isso. Qual mãe nos dias de hoje faz o bolo de aniversário do filho? Nenhuma! Ninguém faz nada! Compra-se tudo pronto! Ora... poucos hoje em dia se propõem a instalar um player de blu-ray, quiçá instalar um chuveiro elétrico. Estamos dia a dia perdendo a capacidade que garantiu anos de evolução: A capacidade de criar nossas ferramentas

terça-feira, 28 de maio de 2013

Revolução digital

Revolução Francesa, feita de pólvora e povo
Entre alguns amigos meus era recorrente uma conversa sobre quando irá ocorrer o colapso do capitalismo. Sim, ele é certo e iminente, porém essa data vem sendo postergada ano a ano, dada as estratégias para contenção do povo implementadas por esse ser sem forma porém consciente: O Capital. Entre essas estratégias vale tudo, desde pão e circo até a novíssima economia solidária (que nada mais é do que pegar peças que estão fora da máquina e encaixar de volta).
Bem ou mal, uma revolução nos espera. E muitos acham que ela será feita de pessoas oprimidas, com armas, lutando para terem de volta o que é de direito. A arma seria um componente importante da revolução. Porém que armas são mais eficazes para uma revolução?

Atualidade

Revolução: "movimento de revolta contra um poder estabelecido, e que visa promover mudanças profundas nas instituições políticas, econômicas, culturais e morais". Contudo essa revolução não precisa ser rápida, imediata. Revoluções lentas também são eficientes para mudar o status-quo do mundo. As revoluções silenciosas talvez sejam até mais eficientes, já que iniciam na mente, e não no gatilho, e são sutis, crescem, contaminam as idéias. E assim como uma inception,  deve ser bem planejada; deve-se saber que armas serão usadas, e em que medida.
O que muitos pensadores e leitores de Marx deixam de lado é que as armas da nova revolução podem ser completamente diferentes; inimagináveis para os pensadores antigos. Nós conhecemos essas armas, mas damos pouco valor, ou não entendemos a radicalidade de mudanças que elas trazem. Essas novas armas são as tecnologias de informação. E, quem sabe, os estudiosos do futuro já considerarão que a revolução a tanto anunciada já teve início, e está acontecendo li-te-ral-men-te de baixo de nossos narizes, nesse teclado que tenho sob os dedos.

Uma voz gritou no cyberespaço, e não pode mais ser calada

A Internet tem becos escuros que poucos conhecem. Nesses becos (assim como os do mundo real), muita coisa ilegal ocorre. Porém são nesses becos da deepweb que a revolução já iniciou. São pessoas, usando da anonimalidade, para conversar o que é subversivo aos olhos da lei. E a história está ai para nos contar que o que hoje é comum, ontem foi subversivo, e foi motivo de prisões, torturas e mortes.
A revolução já iniciou, e as provas são até mais bobas do que se pensa. Já comentei aqui em um post sobre o fenômeno do suricate seboso, e sua irreverência ao fazer graça com as peculiaridades do cearense. Ora veja: Temos alguns garotos de menos de 20 anos tomando conta do humor na Internet. São pessoas que se identificam com suas raizes, e fazem graça, muitas vezes, da miséria e do sofrimento de nosso povo. Seria licença poética demais falar que é uma crítica velada. Mas é uma crítica! E mais do que isso, é a voz de uma parte da população (os jovens) que em geral é chamada de desmiolada, apolítica, e massa de manobra do marketing. Eu vejo além. Eu vejo jovens que antes dos 20 anos chamaram atenção para uma brincadeira. Mas que antes dos 20 descobriram que, quando você fala algo sincero, você é ouvido. Se Quando esses jovens entenderem o poder que ganharam, verão que suas palavras digitalizadas são mais poderosas do que chumbo e pólvora.

Armas feitas de bits e códigos

Todo o poder da mídia, usada a seu favor pelos grupos de comunicação, hoje em dia está migrando para as mídias on-line. Se antes a televisão era o meio de comunicação principal, hoje essa realidade já mudou, e é uma mudança permanente. Ok que os grandes grupos de comunicação (na busca do poder perdido) migraram para a rede procurando manter seus pensamentos na cabeça da população. Porém as novas ferramentas de informação deixam em pé de igualdade todos na rede! Pouco a pouco as pessoas notarão que seu poder de comunicação hoje é muito maior, e que suas vozes podem ecoar até o fim do mundo, se quiserem. 
Alguém pode intervir, dizendo que a internet ainda é .com , isto é, é comercial. Porém iniciativas como a Deepweb, ou Bitcoin garantem que há pessoas pensando na liberdade acima de tudo. Isto é parte da filosofia do software livre. E é esta filosofia que está nos armando com novas tecnologias para um mundo melhor:
  • Sistemas operacionais livres: Rápidos, estáveis, imunes a invasões, e que rodam em equipamentos antigos, garantindo que não trabalham com a obsolescência programada. 
  • Moedas livres: Desligadas do mercado financeiro, garantem a continuidade da troca de excedentes entre humanos sem alimentar a ganância de uns. 
  • Hardwares livres: Projetos de computadores que podem ser feitos em casa, adaptados às necessidades dos seres humanos.
  • Protocolos livres: Garantem as comunicações entre pessoas, de forma anônima, como a rede TOR. 
  • Redes Mesh: Redes que ligam computadores ponto a ponto, em uma rede global separada da internet. Depois de ligada, nada mais será como antes: A informação será livre!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Escambo, capitalismo e bitcoin

Existe na deepweb no submundo da Internet uma moeda descentralizada do mercado financeiro. É a chamada bitcoin, que por enquanto só aparece em notícias comuns por ser notoriamente usada para comprar coisas ilícitas. Crimes a parte, a ideia de uma moeda livre pode ser um ponto importantíssimo para uma nova organização social.

Pré-capitalismo

Nas primeiras comunidades humanas, com o nascimento e desenvolvimento da agricultura veio o excedente de produção. De forma reduzida, este excedente foi o início do comércio na humanidade: As tribos e grupos trocavam excedentes com outros humanos, e assim supriam suas necessidades.
Obviamente muita negociação deveria ocorrer, já que a cotação de quanto de arroz pode ser trocada por milho era algo bastante subjetivo. Nesse momento nasce a moeda, algo que simbolize um valor. Ouro, prata, cobre, marfim, e até sal (daí a palavra salário) já foram usados como moeda, e seu valor era atribuído a dificuldade em obter o material. Porém já nessa época da humanidade a desigualdade aparece: Se um país é mais fértil, ou se tem mais jazidas de metais preciosos, o balanço econômico irá beneficiar mais uns do que outros.
A evolução da moeda passa pela emissão do papel-moeda lastreado (um documento que é garantia de uma dada quantia em ouro em posse do governo) para o papel-moeda moderno, garantido apelas pela saúde econômica do país que emitiu o dinheiro. A emissão desse dinheiro é controlada e centralizada, e os meios de produção se dobram a sua vontade. O monstro econômico nasce, para no século XX ser alimentado pelo liberalismo e pelo mercado financeiro.
Mas... e se no início dessa história o ouro fosse substituído por algo que todos os seres humanos pudesse minerar em casa? E se a moeda fosse baseada na matemática?!

Fazendo dinheiro em casa

O bitcoin é basicamente um par de números. Mas não números comuns; eles são feitos de números primos, essas maravilhas da matemática, tão imprevisíveis de serem encontrados. Basicamente funciona assim:
  • Encontrar um número primo grande é algo muito difícil. Eles aparecem de forma aleatória entre os números, e nenhum algoritmo criado até hoje consegue prever todos os números primos. Então o lance é ir testando um a um. 
  • A criptografia RSA utiliza a multiplicação de dois números primos para criar um terceiro número, que é chamado chave pública. Um cálculo simples com os dois números primos gera a chave privada. O pulo do gato da tecnologia é que é muito fácil multiplicar os dois números primos para ver se bate com a chave pública, porém é dificílimo encontrar quais números primos multiplicados geram esse valor da chave pública (caso queira conhecer a fundo, assista este ótimo vídeo).
  • O bitcoin nada mais é do que a geração dessas duas chaves pública e privada. Seu valor deriva da quantidade de energia elétrica necessária para manter os computadores (e as GPU's) funcionando para criar um bitcoin (tarefa que pode levar dias para ser realizada). 
  • O protocolo de transferência entre carteiras eletrônicas garante que um bitcoin não seja utilizado mais de uma vez pela mesma pessoa, assegurando falhas nas transações. 
Dessa forma, um usuário comum, com um computador comum (é necessário uma boa placa de vídeo) pode gerar dinheiro em casa, convertendo energia elétrica em bitcoins que podem ser comercializados pela Internet de forma autônoma do mercado financeiro. Existe um limite de quantas bitcoins podem ser geradas no mundo, que poderia impedir a inflação e a desvalorização da moeda. 

Fomentando sociedades alternativas

Desvinculado de um sistema financeiro, sendo gerada pela própria população, o Bitcoin seria uma ótima solução para uma nova organização social. Viajando um pouco na maionese, poderíamos imaginar grupos humanos de algumas centenas de pessoas, trabalhando, reciclando, gerando sua própria comida e gerando bitcoins através de energia solar e eólica. Essas bitcoins poderiam ser usadas para o comércio entre comunidades. Porém isso é assunto para outro post!

Aceitamos doações de Bitcoins! 1G8Hcdctyd8rP4TKBVYSqSw1YiEC2kki27

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A dificuldade em ensinar programação para adolescentes

Por incrível que pareça ensinar programação para crianças é mais fácil do que para adolescentes. O motivo? Os jogos eletrônicos que os adolescentes se acostumaram a jogar. Suas imagens em 3D, seus gráficos e som nivelam muito pra cima as expectativas de programação dos adolescentes (grande parte deles só se interessam por programar pensando em jogos).

Tudo isso me faz sentir falta dos primórdios da computação, onde era comum todos escreverem seus próprios códigos, e para compartilhar era comum revistas exibirem os códigos para serem escritos no computador. Queria jogar? Passava-se 30 minutos digitando o fonte, para depois compilar e executar. Os mais afortunados tinham um gravador para registrar em fita cassete o resultado.

É a incongruência dos computadores: quanto mais se tem, menos (proporcionalmente) se programa. No início da computação, 100% dos seus usuários programavam. E hoje essa proporção é mínima, que faz até com que computadores diminuam o desempenho de um grupo.

Devemos parar de ensinar a usar computadores, e começar a ensinar a criar com computadores.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A casa robótica e a casa do futuro

Vira e mexe aparecem reportagens alegando que tal feira de arquitetura apresentará a casa dos Jetsons do futuro. Vou lá ler a reportagem é é uma decepção: Um monte de "soluções" para problemas tão mínimos, que provavelmente serão usados assim que comprados, e quando for para mostrar para os amigos. Senão vejamos:

  • Ligar o chuveiro, banheira, luzes remotamente: Pra que? Ligar o chuveiro é idiotice, em tempos de cuidado com a água. Sobre banheira, conheço pessoas que tem em casa e usaram 2 vezes em 5 anos. E luzes... bom, pra isso já existem timers caso necessário. 
  • Controlar aparelhos domésticos: Enquanto a industria não se alinhar para a intercompatibilidade, não vai ser a casa que vai solucionar essa questão. Vai acabar virando só mais uma forma de controle (ao lado das dezenas de controles remoto que já temos). Felizmente tecnologias como DLNa e CEC do HDMI já estão ajudando a diminuir os controles. 
  • Ver remotamente na câmera da porta que um amigo seu chegou, abrir a porta pra ele, e ciceroneá-lo a distância. A-han... você vai usar isso umas... duas vezes na vida.
  • Câmeras de segurança: É. Esse eu acho interessante. Ver remotamente o que ocorre em casa é legal. 
Putz! Será que esses arquitetos não conseguem pensar fora da caixa? Todo mundo só pensa as mesmas coisas? Só consigo me lembrar daqueles vídeos sobre carros do futuro, em que eles acertavam um ou dois detalhes, e o resto era só besteira!

A casa do futuro não será eletrônica

O paradigma da eletrônica, das telas de LCD, de informação acabam nublando a visão dos arquitetos sobre o que esperar mesmo de uma casa inteligente. Senão vejamos: O que é mais inteligente? Uma casa que regula a temperatura do ar-condicionado eletronicamente através de sensores e computadores, ou uma casa que não precise de regulagem de temperatura?! Como? Com o uso de materiais inteligentes, formas e medidas pensadas, ou seja, uma casa inteligente de nascimento.

Ora, senão vejamos: Como é que prédios públicos antigamente funcionavam sem ar-condicionado? E sem ventilador? Prédios públicos como prefeituras, escolas, igrejas, locais que recebem várias pessoas existem antes de existirem as tecnologias de climatização. E a solução era somente a arquitetura pensada desde o princípio da execução da obra, utilizando pés-direitos (tetos) altos , canalizando ventilação natural, etc.

Outras soluções podem ser aplicadas inteligentemente:

  • Subsolo frio: O subsolo das construções é, em geral, mais frio do que a temperatura ambiente. Essa característica foi muito usada para ambientes que necessitem de temperatura controlada, como adegas e armazéns, mas poderiam ser usadas também para, por exemplo, o quarto de dormir de verão da casa! Um quarto no subsolo, de teto baixo, usado nos dias de calor. 
  • Reutilização de chuva: Calhas de telhados terminando em reservatórios para água da chuva. Essa água, pura e livre de cloro, poderia ser direcionada diretamente para o chuveiro. Nada de bombas para subir a água: Aproveitar ao máximo a gravidade para guiar os canos.
  • Reutilização de água das pias para descarga: Reservatórios intermediários acumulariam água para descargas. Só essa medida já reduziria pela metade o consumo de água em uma casa, já que com o volume de uma descarga é possível tomar um banho! 
  • Canalização de ventos naturais e uso de tetos altos: Soluções simples que podem aposentar o uso de ar-condicionado e de ventiladores em dias e locais quentes. Cortinas de água podem também ser usadas para purificar o ar contra poeira e para diminuir a temperatura do mesmo. 
  • Uso de aquecedores solares para água do chuveiro, com reservatório térmico para manter água quente mesmo a noite. 
  • Quando necessário, uso de refrigeração piezo-elétrica, que pode refrigerar um ambiente sem o uso de peças moveis (motores, compressores, gás refrigerante, etc.). Isso não é uma tecnologia nova! Só não é usada em grande escala. 
  • Para paredes com incidência solar, usar plantas como a unha de gato para resfriar e isolar o calor. 
  • Usar telhados verdes, que isolam melhor o calor. O teto da casa poderia ser um jardim, uma horta, ou mesmo uma área de lazer verde, usando grama ou outras plantas trepadeiras. 
  • Área de compostagem de lixo orgânico: Soluções para isso precisam ser práticas. Para isso uma das pias da cozinha poderia ser de uso obrigatoriamente orgânico. Um triturador de alimentos ajudaria que o composto orgânico fosse direto para uma área de compostagem, para que de lá pudesse sair Chorume (para irrigação de plantas) e adubo orgânico, para uma horta ou jardim. 
  • E a aplicação de soluções já comerciais verdes: Uso de painéis solares, uso de ilumunação natural combinada com iluminação LED (consome menos do que fluorescente), etc.
Ou seja, um uso racional de energias:
Gravidade - Sol - Ventos - Água - Eletricidade

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O fenômeno Suricate Seboso e a revolução digital


Junte a imagem mal recortada de alguns suricates, textos com expressões bem regionais, tudo em cima de uma imagem de galáxias (!?) e você terá sua própria versão do meme Suricate Seboso! Estatísticas oficiais de acesso divulgadas pelo grupo mostram a sua força ultra-concentrada na cidade de Fortaleza. Também pudera: as brincadeiras sempre são feitas com base em coisas ditas pelos cidadãos comuns daqui, ou de situações e locais específicos.

Estatísticas do Suricate Oficiais
O sucesso do Suricate Seboso marca uma evolução na cultura digital: A transição da passividade do telespectador de TV para a colaboração e co-criação de conteúdos na Internet. A grande parcela dos assinantes do canal no Facebook (Jovens de âmbos os sexos, entre 13 e 34 anos) é justamente a que cada vez menos assiste televisão. O suricate representa a sua audiência muito melhor que a TV: Fala o que eles falam, gosta do que eles gostam, e sofre o que eles sofrem!

Uma das imagens mostra um grupo de suricates grandes, com um pequenininho próximo. A legenda diz: "A mãe disse que era pro Zezin brincar também. Mas é pra ele ser café-com-leite", expressão que indica que é para pegar leve com ele. Também é comum a escrita literal de como o cearense fala, como em "corra linda da mãe" (ao invés de coisa) ou em "affmaria maxu, nãm!". Porém os erros propositais não assustam professores de português que identificam ali uma originalidade válida de ser registrada.

Os memes com carinhas não são novidade. Desenhos preto e branco representando sentimentos já tomam conta das redes sociais já fazem alguns anos, e eles ainda são uma outra forma de expressão da juventude. Porém são importados, muitas vezes representando situações que não são comuns no nosso país, quiça no estado. Nenhum meme regional alcançou a popularidade necessária para deixar suas fronteiras (nem mesmo o fortíssimo Seu Lunga).

Revolução Digital made in Ceará

O suricate é fruto da evolução das capacidades digitais de expressão. Há 30 anos se você quisesse expressar-se para um grande grupo de pessoas, a mídia resumia-se a fanzines mimeografados e entregues em Universidades ou algo parecido. O pleno domínio dos veículos de comunicação de massa por famílias ou grupos em todo o país impedia até mesmo a criação de uma televisão mais regional.

Com o barateamento de computadores e câmeras digitais, e o fácil acesso a softwares de edição de imagem e vídeo, um documentário caseiro em vídeo, que necessitava do aluguel de uma sala de edição linear, hoje pode ser feito por um adolescente em casa, em seu tempo livre.

Porém foram as tecnologias de publicação e compartilhamento social de conteúdo que deram força aos movimentos Meme. Sua estrutura viralizante facilita a expansão do conteúdo criado, e hoje o Suricate conta com audiências comparável com a de programas globais. É muito poder para um grupo de adolescentes. São 410 mil seguidores em Abril de 2013, a esmagadora maioria em Fortaleza. Praticamente um em cada 10 fortalezenses segue o Suricate, ou algum dos seus muitos imitadores. Porém esse poder foi adquirido da força da criatividade de seus integrantes, e de sua capacidade de fazer humor da desgraça local (uma especialidade dos humoristas alencarinos).

Que evoluções podemos esperar de uma juventude participativa e co-criadora de conteúdo? Se hoje eles estão criando imagens para se divertir e se expressar, nada os impedirá de que quando adultos criem conteúdos que os representem nas suas lutas, anseios e necessidades.

sexta-feira, 1 de março de 2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Não podemos viver sozinhos... fisicamente não dá!

Existe um programa na Discovery que retrata pessoas chamadas preparadores, que se estocam de comida, água e técnicas para sobreviverem caso aconteça algum desastre em escala global. Os riscos são reais: Explosões solares, asteroides, terremotos, ou mesmo o inevitável fim do capitalismo, e a era da escrotidão que viria virá em seguida.

É necessário metade dessa área para
sustentar a vida de uma pessoa
Assistindo ao programa, me veio uma dúvida: Quanto de terra eu preciso para garantir o meu sustento individual? Digo: Se eu estivesse só, e ainda tivesse alguma tecnologia e sementes, quantos hectares de terra eu precisaria ter para viver? A resposta é: Meio hectare! ou exatamente um quadrado de terra de 50m x 100m. Para os ruins com medidas, seria meio quarteirão de plantação.

Eu me assustei um pouco com o tamanho. Afinal um terreno desses não é nem perto do que os seres humanos comuns têm disponível em seus quintais. Na escola onde ensino irão revitalizar uma hortinha, e agora vejo que ela fara pouquíssima diferença na alimentação dos quase 400 alunos. O tamanho também jogou por água abaixo um plano meu de montar uma horta suspensa no meu mísero quintal de 16m²!

Meu pensamento seguinte foi ver que, para sobreviver mesmo, é necessário um grupo! Não dá pra, sozinho ou em casal, arar, plantar, agoar e cuidar de toda essa terra com facilidade (a não ser que o casal vá viver de batata pro resto da vida).

Para se ter uma diversidade mínima de cardápio, contando com as sazonalidades das culturas, imagino que tenha que ter pelo menos 10 seres humanos juntos, cultivando seus 5 hectares comunitários de terra, e ainda precisando trocar excedentes com outros grupos. Ou seja, nem que eu queira dá pra eu me jogar no meio de uma área desabitada para me isolar do mundo.

Olhando assim, até que dá pra condenar menos os amish!

Software Livre - Uma escolha política

Já escrevi aqui as razões inteligentes boas para usar softwares livres (Post: Por que software livre é positivo para a humanidade). Mas é muito importante que os usuários de SL entendam o movimento político por trás desse uso.

Primeiramente o uso de SL tem grandes razões econômicas, principalmente para países em desenvolvimento como o Brasil. Quando você vai a uma loja e compra um software proprietário, como o Windows da Microsoft, boa parte do valor pago sai do país, indo engordar as economias dos países desenvolvidos, especialmente os USA. A geração de renda e emprego da simples venda é mínima para o pais, comparado com o volume de negócios que o SL pode proporcionar. Já com o Software Livre, mesmo este sendo distribuído gratuitamente, seu uso demanda profissionais tanto na instalação, na manutenção e na adaptação desses softwares para as empresas. A cadeia de geração de empregos não para ai, já que a capacitação desses profissionais em SL também representa uma grande fonte de renda ligado ao SL.

Muitas recomendações governamentais condenam o uso de dinheiro público para o ensino e capacitação de tecnologias proprietárias. E isso está corretíssimo: No momento em que eu capacito minha população em uma ferramenta proprietária (como o Windows), eu estou garantindo uma continuidade de um monopólio privado, e garantindo a continuidade de venda de softwares da empresa proprietária, tudo isso gerando renda que irá deixar o país, e não irá promover a pesquisa e desenvolvimento de tecnologias similares aqui.

Outro ponto importante do SL é sua capacidade de adaptação. Como este vem junto com o código-fonte, significa que um programador pode alterar as funções do software, e adaptar seu funcionamento às necessidades. Obviamente este procedimento necessita de uma capacitação, porém este tipo de instrução quando dada à população gera novas ferramentas e fomenta a pesquisa e desenvolvimento. Todo esse movimento pró-Software Livre tente a garantir ganhos nos mercados de tecnologia.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O problema da 'energia' dos metafísicos

Isto NÃO É energia!
Ah, energia... quantas vezes teu nome foi falado em vão! É na música, na poesia, na pregação da igreja... é, você está em todo lugar (de fato). Mas tem muita gente inventando com teu sagrado nome, e viajando na maionese!

Não preciso dizer o que é energia. A wikipedia (wikipedia.org/wiki/Energia) consegue trazer uma boa explicação do que de fato é o sujeito aqui: a energia estudada da física. É essa 'coisa' que consegue se transmutar em energia potencial, ou cinética, ou elétrica, ou elástica, ou sonora... mas nunca transcedental!

Minha cisma aqui é que está virando comum a galera bicho-grilo a comunidade transcedental citar termos e conceitos físicos e científicos para embasar (mal) os pensamentos metafísicos. É gnóstico citando Hawkins, é religioso citando Einstein, é livro de auto-ajuda falando de teoria das cordas. Menções honrosas ao livro/filme O Segredo, O cocô em papel livro Hercólubus, e o site do filósofo XR (direto do túnel do tempo) xr.pro.br/ .

A comunidade metafísica deveria logo entrar em um consenso e parar de usar a palavra energia (que já está bem estabelecia do que é, tirando o uso poético) e começar a pensar em outras denominações para essa outra 'energia', que:

  • É conseguida no ato da concentração ou na euforia de uma celebração;
  • Passada através de reikis e afins;
  • Acumula-se em agulhas de acupuntura ou similares;
  • É bloqueada com amuletos, fitinhas, penduricalhos e imagens (no caso, a energia negativa);
  • Acumula-se em cristais, pedras, e na borda de seres vivos ou espirituais;
  • É recebida quando se entra em um canto 'sagrado', bonito, histórico ou importante.
Essas 'energias' ai em cima não estão sincronizadas com as leis da termodinâmica, por exemplo. Então não são energias, ora! Olha... se quer chamar de algo, dá pra se pensar em outras denominações melhores: Tchan, climão, leruwáit, aura, ou o meu preferido: Vibe! Pra evitar confusão, morou?!

Resposta a Ghiraldelli Jr.

Sobre o post http://ghiraldelli.pro.br/2013/02/datena-versus-ateus/

Parabéns. Nunca vi tanta m#%*@ escrita com palavras tão bem escolhidas. Mas não dá para ler e não se questionar:

1. "professores de filosofia não constituem uma minoria, no máximo um grupo profissional [...]  nunca os ateus serão uma minoria". Se os professores de filosofia sofressem preconceito da maior parte da população, por não entender sua forma de pensar, você não soltaria essa pérola. Se o 'clubinho ateu' se mobiliza para a garantia de seu estado laico, temendo um retrocesso de pensamento, isso o faz maior que um clubinho, né? Tenha respeito pelo pensamento. VOCÊ filosofo, se pudesse impedir a queda do pensamento grego, não o faria? Se soubesse que após essa queda passaram-se centenas de anos para um renascimento desse pensamento. Você re-al-men-te chamaria-os de 'clubinho'?

2. "Ninguém se mobiliza contra o ateu, seriamente, por conta dessa fala de Datena". PROVE. Eu provo o contrário, mostrando a guerra de insultos que esse 'comunicador' provocou ao deixar explicito seu preconceito.

3. "As pessoas não perguntam se alguém é ateu ou não [...] para iniciar um relacionamento". Você é professor? Não acredito. Pois TO-DO semestre sou questionado sobre o que acredito por meus alunos. E parece uma prática comum, principalmente entre os evangélicos.

4. "A maioria de nós não tem uma moral laica, mas religiosa, e mesmo que laica, foi nos incutida por meios populares-religiosos". Muito fácil discordar. A moral corrente (Zeitgeist) parece ser religiosa, mas é o contrário: A moral corrente serve de filtro para a moral religiosa ser repassada. É a tal da 'interpretação', que faz com que eu ou você não mais guardemos o sábado, ou que nos permita dar voz e vez as mulheres. O zeitgeist até criou uma novidade: O deus bacana! Ora! Se você ler as diversas escrituras, verá que deus já foi de tudo, menos bacana!

Aguardo resposta!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O neo-ateismo e a crítica dos religiosos

Em 28 de dezembro de 2012 a adolescente Roberta Baêta, 19 anos, suicidou-se. O fato repercutiu muito no Facebook, não por ser um suicídio de adolescente (a 3ª maior causa de morte de adolescentes no Brasil), mas por ela ser uma ateia ativista, e por ter culpado a perseguição à sua opção como causa da sua desistência da vida. O evento iniciou uma pequena guerra nas redes sociais, entre religiosos e ateus. Perfis pró-ateísmo passaram a divulgar com mais frequência tirinhas com brincadeiras (algumas bem pesadas) contra religiosos ou entidades religiosas (especialmente evangélicos e muçulmanos, os mais radicais). Floresceram também perfis anti-neo-ateísmo, alegando que essa onda de novos ateus é uma moda, e que muitos desses adolescentes entram na onda para cumprir o protocolo padrão adolescente de se revoltar contra os pais. Ser contra a religião dos pais seria uma boa estratégia.

O pior de tudo é que tenho que concordar um pouco com a crítica. O perfil da ATEA no Facebook (associação da qual apoio e sou membro pagador) costuma replicar depoimentos, a maioria de adolescentes, sobre sua descoberta do ateísmo, e suas revoltas para com os pais, em geral. Não que eu não concorde que devemos lutar contra a alienação de muitas religiões. Mas é difícil ler depoimentos de pré-adolescentes afirmando que são ateus desde criança. Tem algo estranho ai. É como tentar admirar a poesia de uma criança: Você acha bonitinho, mas sabe que a criança não tem profundidade de sentimentos e experiências para tornar o texto sincero.

Ateísmo não é religião, e nem mesmo é um pensamento uniforme. E por isso não tem um guia, um livro ou um líder  O que temos são personalidades, algumas bem agressivas (como Dawkins), outras mais pacatas (como Botton), além da sempre comum lista de celebridades, como Angelina Jolie, Brad Pit, Charles Chaplin, Darwin, Voltaire, Einstein, etc. São muitos pensamentos diferentes para serem defendidos com fervor. Alias, fervor é uma palavra que combina muito mais com fé do que com dúvida (a base de todo o pensamento ateu ou agnóstico).

Como nasce um ateu?

Antes de ser um ateu, uma pessoa deve ser cientista. Deve se perguntar das coisas, e usar o conhecimento acumulado para tentar derivar respostas. Felizmente todos nós viramos cientistas quando temos 4 anos! É a época dos 'porques', que tanto dificultam a vida de certos pais. Lembro que, quando criança, havia formulado a hipótese de que as ondas do mar eram feitas pelas baleias, pois o 'vento' (a explicação standard da escola) não me satisfazia. Afinal eu não conseguia fazer ondas similares às do mar soprando em um balde. O que é isso, senão o método científico? Tinha uma explicação 'goela abaixo' não satisfatória, tinha um experimento em escala (o balde!) e tinha uma hipótese. Obviamente estava errado, até o dia em que entendi as correntes marinhas derivadas da evaporação do mar, com consequência o vento.

Com o tempo os adultos vão estragando moldando essas crianças, incluindo respostas prontas que não cabem questionamento. É a doutrinação da religião. Poucos sobrevivem. As cicatrizes das respostas prontas  são profundas demais, e muitas vezes são mais adequadas a um mundo desigual. As explicações da desigualdade social, por exemplo, são muito complexas para uma criança de 10 anos, então dizer que 'foi deus quem quis', ou 'que é a nossa cruz' parecem respostas satisfatórias para a idade.

Então: Não creio que possa existir um pré-adolescente ateu porque as explicações do mundo são muito complexas para essa idade. E se ele se diz ateu, é porque está crendo de que aquele pensamento é o correto. E crer é exatamente o que um ateu não deve fazer!

Religião para Ateus!? Pode isso, Arnaldo?

Religião para Ateus
Religião para Ateus, de Alain de Botton
Olha, a regra é clara: Ateísmo não é religião. Mas o filósofo Alain de Botton fez um trabalho muito bom ao mostrar a importância de vários elementos da religião para a sociedade. 

Um exemplo dele critica as universidades: Estas não criam cidadãos melhores, e sim pessoas com uma expertise em uma área. Você não sai um ser humano melhor da Universidade (se não era bom antes, talvez saia até pior!). A igreja te-o-ri-ca-men-te traz valores e rituais que deveriam engrandecer o zeitgeist. Na visão do autor, então, parte da experiência universitária deveria ser enriquecida com mais filosofia, sociologia, etc. 

A questão dos rituais, eu sei, geram um frio na espinha de muita gente. Porém, ao retirar-se a capa de religiosidade da palavra, os rituais são marcos na vida, e são importantes para assentar evoluções da pessoa. Cerimonias como casamentos, aniversários, formaturas, bar mitzvah's e festas de 15 anos, todos são marcos que tornam nossa vida menos monótona e com um sentido a mais de realização. Mesmo ritualísticas mais comuns, como missas, cultos e datas festivas como o natal teriam como benefício uma forma de reencontro com seus próximos, e um obrigatório reencontro com seus valores, em tese

O livro tem partes que fariam Darwin se remexer no túmulo, mas ainda assim é uma leitura válida. Ele ajuda a questionar certos 'ditos populares', repetidos à exaustidão por nós colegas ateus e agnósticos contra as investidas dos religiosos. E se você é ateu mesmo, não pode deixar nunca de ler algo que possa mudar sua forma de pensar, não é mesmo!?

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Religião na escola? Sim, desde que da forma correta!

Diferente de outros ateus, não sou totalmente contra o ensino de religião na escola. Sou contra o ensino de uma única religião na escola! Mesmo em escolas públicas. Afinal a escola é um local de aprendizado e preparo para a vida lá fora, e sim, a vida é feita também do seu lado espirutual. Cabe a escola, mesmo no estado laico, mostrar essas visões espirituais, da mesma forma que nós vemos as religiões do egito antigo ou da mesopotâmia.

A ideia também vale para as escolas ligadas diretamente a uma religião. Um colégio batista ou católico tem uma obrigação religiosa moral em mostrar que existem outras formas de pensar. Afinal em seus ensinamentos sempre há a obrigação do respeito e amor ao próximo. Como posso amar ao próximo se não o conheço?

Obviamente dentro dessa aula de religiões (e não religião), caberia também uma explicação sobre os pensamentos agnósticos e ateistas. Uma vez fui explicar para um teólogo (olha ai!) que eu era agnóstico (na época) e ele nem sabia o que era! Afinal, o que é que se estuda em teologia? Teologia é curso pra pastor? Ou vão realmente estudar deus?

Talvez se as religiões parassem de procurar assinantes adeptos e começassem a realmente respeitar e entender o próximo, boa parte dessa animosidade entre crentes e católicos, e principalmente entre religiosos e ateus acabaria.

Sugestão de currículo para aulas de religiões

Segue minha sugestão de currículo completo, baseado no livro Religiões, de Philip Wilkinson (editora Zahar), que é bem ilustrado e daria para se usar bem em aulas para adolescentes. 
  • O que é religião?
    • Religião e doutrina
    • Religião e mitologia
    • Experiência religiosa
    • Instituições religiosas
    • Ética
    • Rituais
    • Lugares e objetos sagrados
  • As religiões primais
  • As religiões monoteistas
    • Judaismo
    • Cristianismo
    • Islamismo
    • Zoroastrismo
  • As religiões indianas
    • Hinduismo
    • Budismo
    • Siquismo
    • Jainismo
  • As religiões orientais
    • Confucionismo
    • Taoismo
    • Xintoísmo
  • Os novos movimentos religiosos
    • Omoto, Mahikari, Agonshu e Tenrikyo (Japão)
    • Cao Dai (Vietnã)
    • Bahaismo (Irã)
    • Igreja Universal (Brasil)
    • Meditação transcedental (Índia)
    • Rastafarianismo (Jamaica)
    • Vodu, Santeria e Candomblé (Haiti, Cuba e Brasil)
    • Nova Era
    • Espiritismo e Espiritualismo
    • Espiritualidade Psicodélica, Santo Daime, Vegetal
  • Não-religiosidade
    • Agnosticismo Teista e Ateista
    • Ateismo

domingo, 6 de janeiro de 2013

Os erros do marketing de incentivo a leitura

Tenho grandes motivos para crer que as propagandas de incentivo a leitura fazem um desserviço ao gosto de ler. Todos esses anúncios de que "ler também é um exercício", ou "ler é uma aventura" criam dois modos de pensar: que a leitura é algo chatissimo (daí precisa de propaganda maciça pra dizer o contrário); e criam um pedantismo nos que são adeptos da leitura (que por conta da sociedade da imagem, usam isso como forma de superioridade).

NÃO! Não sou contra a leitura. Pelo contrário, tento sempre incentivar em meus alunos o gosto pelos livros, mostrando que a leitura é um tipo de entretenimento diferente, mais duradouro e detalhado, porém tão aprazível quanto outros, mais imediatistas. Sempre cito como é interessante ver o paralelo entre um filme e um livro que contam a mesma história.

Uma coisa que aprendi ensinando programação é que se eu começo a aula dizendo que "a matéria a seguir é difícil, então prestem muita atenção", mais da metade da turma desiste antes de começar! Seus cérebros já bloqueiam seu raciocínio, e uma desculpa já está pronta para àquela apatia: "era difícil mesmo, não vou aprender".Então se uma propaganda incita a leitura, colocando uma aura de 'divertido e mágico', alguns não-leitores passarão por essa negação quase inconsciente, afastando-se ainda mais da leitura.

Esse movimento de incentivo a leitura tem criado, ao meu ver, livros que serão comprados ou dados de presente, mas que dificilmente serão lidos mesmo, como relato nas fotos abaixo!
Livros comprados por entusiastas de esportes, que provavelmente não irão ler todo. 

Livros PowerPoint: Uma coleção de frases bonitinhas com imagens para compor um livro que pode ser lido em 5 minutos. 

Fotolivros: Será que é porque uma imagem vale mais do que mil palavras?!