domingo, 23 de dezembro de 2012

Obsolescência programada

Ontem estive em um batizado que ocorreu em uma casa secular, de uma família aristocrata que conseguiu manter sua sala de jantar intocável por, chuto eu, uns 80 anos. Tirando alguns quadros mais modernos e fotografias coloridas, a sala era toda composta de móveis antigos escuros e pesados, provavelmente de mogno, bem trabalhados e incrivelmente bem preservados. Admirado, passei boa parte do tempo avaliando a idade dos móveis e sua clara ausência de manutenção (tirando é claro o óleo de peroba e seu cheiro inconfundível).

Oitenta anos... oitenta anos se passaram e aquela cadeira de assento de couro estava lá, perfeita. Por que não podemos ter móveis desse jeito? Por que o sofá que comprei há 3 anos já está tão caquético a ponto de precisar ser reformado ou trocado? É uma tristeza ver que já não se fazem mais coisas para durar. Pior que isso... fazem as coisas de propósito para se quebrar!

Troquei semana retrasada de celular. Me recusei a comprar um aparelho novo, já que meu antigo Samsung Spica durou menos de 11 meses. 11 meses! Só não acionei garantia porque comprei fora do país. Mas é uma realidade ridícula que vivemos: Por uma questão de mercado, as empresas fazem as coisas para que quebrem com um tempo programado, para que os consumidores logo voltem às compras para substituir seus produtos.

Consumismo


Parte desse consumismo é tão grosseiro que embaça nossa noção do ridículo. Exemplo: Na época atual, o melhor telefone que existe é o Samsung Galaxy SIII, que custa R$ 1999,00! E tinha muita gente louca porque apareceram ofertas de R$ 1499 pelo aparelho. Ora, após parcelar esse valor em 10 vezes, ao final, você ainda estará pagando por um produto que já se desvalorizou bastante.

O consumismo gira a economia dos grandes países. Nos USA é comum a troca de aparelhos antes mesmo deles quebrarem, só pela força da propaganda e do status. E poucos americanos retornam seus aparelhos antigos ao mercado de usados, engavetando-os. Este ciclo de compras programadas mantém grandes economias. Também no Brasil existe uma parcela da população que troca de carro todo ano, aproveitando o anterior como entrada, e parcelando a diferença, o que dá uma falsa ilusão de estar se pagando pouco pelo produto. Poucos consumidores levam em conta que um carro novo se desvaloriza muito assim que sai da concessionária, e que o ideal seria usar bem o veículo por pelo menos 4 anos, passando um tempo sem pagar prestação.

É tão difícil assim criar coisas modernas que duram?

No universo de Star Wars sempre me admirei da qualidade e durabilidade das coisas que lá aparecem. As naves usadas pelos rebeldes são velhas e arranhadas, porém ainda funcionam muito bem. Quando Luke vai para o planeta pantanoso Dagobah, ai é que vemos quão duráveis são as coisas: Tanto a nave X-wing dele quanto seu robô R2-D2 caem no pântano, mas estão funcionando assim que saem da lama! O próprio R2-D2 atravessa funcionando todos os 6 filmes (quiça os novos 3 que virão), totalizando por baixo 40 anos em funcionamento, e sem upgrades! Ficção?! Por que?

Os produtos no Universo Star Wars são muito duráveis, aguentando de tudo!


Cabo Flat
No meu pensamento, as empresas poderiam mudar o foco de pesquisa de criar produtos que quebrem de forma programada para criar produtos que sejam de fato duráveis, e cobrar mais por isso. Acredito que haja mercado para isso. E as dificuldades técnicas não devem ser tão difíceis, já que é comum entre nossas matérias primas (plástico por exemplo) serem difíceis de sumir na natureza. E fazendo uma busca em ferros velhos e depósitos é muito fácil identificar soluções tecnológicas que são falhas e as que são duráveis. Por exemplo: A grande maioria dos defeitos em aparelhos comuns (televisores, DVDs, celulares) principalmente os com partes móveis, se dá por problemas nos chamados cabos flat, nitidamente uma solução barata e falha. Já consertei muita coisa só ajustando ou trocando esses cabos.

Com alguns conhecimentos que tenho de eletrônica, posso dar aqui alguns chutes de como conseguir aparelhos eletrônicos mais duráveis:

  • Selar placas de circuito: Muitos defeitos de placas, principalmente de computadores, se dá pela oxidação de trilhas. O desenvolvimento de algum material selante forte, que ainda assim permitisse a passagem de calor, poderia criar placas imunes a oxidação e até a prova d'água!
  • Melhor projeto de circuitos: Montar circuitos redundantes ou com proteções contra sobrecargas aumentaria um pouco os custos, mas os ganhos de longevidade provavelmente seriam maiores. Ora, a Pioneer X foi construida em 1971 e ainda tem coisas funcionando! Então não é impossível!
  • Evitar soluções ruins: Teclados do tipo chiclete ou membrana são horríveis, e em poucos anos de uso se acabam. Cabos flat são frágeis. 
  • Telas sem vidro: Telas sempre foram frágeis por conter vidro. Porém são promissoras as tecnologias de telas 100% plásticas, o que garantiria muito a sobrevida de produtos portáteis. Também o uso de telas do tipo LED ou OLED são muito mais duráveis do que telas de LCD (que têm tipo uma lâmpada fluorescente no fundo que queima com o tempo). 
  • Evitar partes mecânicas ou móveis: Dispositivos com partes móveis sempre deixam de funcionar antes, pela fragilidade dessas partes ou pelo desgaste com o uso. Se é difícil fazer algo durável com partes móveis, então não use! Outro exemplo é o dos HDs de computador (com partes mecânicas) versus os SSDs. Além de gastarem menos energia, os SSDs aguentam pancadas e quedas sem nem travar o computador!
  • Baterias removíveis: Como ainda não inventaram baterias com mais de 3 anos de vida útil, o ideal é que houvesse uma padronização de baterias de lítio (similar a padronização de pilhas) e que elas pudessem ser facilmente trocadas. 
  • Nada de encaixes, use parafusos: Peças de encaixe se rompem com quedas, ou dificultam a manutenção. O ideal é aproveitar a moda de parafusos aparentes e abusar deles. 
  • Borrachas ressecam: Poderiam ser trocadas por peças de material mais duráveis, como madeira, alumínio ou aço. Alguns tipos de plástico também ressecam em condições extremas, então seria não economizar nos materiais. 

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