quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Por que a escola de hoje em dia não funciona?

Quem é professor hoje sabe que sala de aula não segura aluno algum. A falta de interesse e atenção para a matéria a ser dada não é novidade. E se você é professor (ou lembra de seus antigos professores) vai saber que o núcleo gestor das escolas põe a culpa da falta de atenção nos alunos! Será!? Será que a falta de interesse moderna nos assuntos escolares é uma conseqüência de alunos que não prevêem que aquilo irá fazer falta no futuro?!

Pois eu digo em alto e bom som: A culpa é da escola! Não há sala de aula no mundo que rivalize com o volume e forma de informação repassado pelos meios de comunicação modernos, como TV a cabo, internet, revistas, etc. O aluno moderno hoje aprende muito mais numa conversa de chat com um amigo ou num programa juvenil do que em uma escola. A concorrência entre escola e mundo moderno hoje é injusta.

Homens das cavernas riscando paredes com carvão


Quando imagino uma cena de sala de aula, com um professor desenhando letras em um quadro branco, esta cena me parece tão arcaica que o pensamento sai preto e branco. Afinal, o processo de ensino não mudou muito nada nos últimos 5 mil anos. Era exatamente dessa maneira que os homens das cavernas instruíam os mais novos: Um mais velho do clã repassava conceitos para os mais novos.

Mesmo um professor modernino, que usa um notebook e um datashow para modernizar suas aulas continua no mesmo paradigma do passado; apenas substituindo o carvão, giz ou pincel por luz projetada. O problema não são os equipamentos de exposição. O problema é a exposição sem a experimentação!

Conteúdo arcaico em mentes modernas


Outro empecilho para o desgosto estudantil é a escolha dos conteúdos. Quando esse aluno começa a chegar no 2º grau, e os professores incentivam o pensamento questionador na turma, o primeiro item a ser questionado é justamente o conteúdo escolar! Muito justo: Um jovem de 15 anos não tem profundidade para questionar nada mais no mundo, só aquilo que lhe é repassado na escola e que ele não entende a prática.

A questão não é que devamos deixar de lecionar matrizes em matemática, ou equações de balanceamento em química. A questão é explicar o porquê daquilo! Um bom professor de matemática poderia demonstrar que são as matrizes que permitem a criação de objetos 3D em computadores.

Mas... nem mesmo os professores sabem porque suas matérias são importantes... (há exceções, é claro!).

Professores que dão mau exemplo por serem professores


O professor é um ícone, um totem. É um ser que, para que seja ouvido, deve ser respeitado. Não o respeito que é conquistado com a força da voz ou da punição. O respeito deve emanar da essência do professor, que é justo em seus atos e pleno em sua situação.

Aluno não respeita professor que não se respeita. Aquele professor que chega a escola com cara de frustrado, sempre de mau humor, aparentemente descontando nos alunos em quem estiver na frente a sua vida sofrida de professor. Esse tipo professor não serve. É aquele professor que se tivesse a chance de ganhar o mesmo que ganha para uma função mais simples, o faria sem pestanejar.

Por que não respeitam? É óbvio! Eu não tenho respeito em alguém que diz que aprender tal coisa irá me tornar uma pessoa de sucesso, se o tal detentor desse conhecimento está em uma situação que é, visivelmente, de não-sucesso. É igual a herbalife essas oportunidades inacreditáveis de negócio: Se fosse tão bom assim, você estaria usando esse bottom ridículo?! Uma pessoa que vende herbalife é porque precisa daquelas outras pessoas abaixo dela para ter sucesso. Um professor que oprime alunos abaixo dele é porque precisa daquela massa oprimida para sentir que pelo menos em uma sala de aula ele tem moral.

Porque isso ocorre? O que aconteceu com esse professor? Se ele detém todo esse conhecimento dito importante, porque ele não é uma pessoa importante?

O respeito para com o professor deve começar pelo próprio professor


Acontece todos os dias nos países que não valorizam a educação: Existem 3 alunos em uma sala: Um ótimo aluno, um aluno mediano e um aluno ruim. Após suas devidas formações o ótimo aluno consegue um ótimo emprego privado, já que ele consegue gerar para seu empregador muita receita com seu comprometimento. O(s) aluno(s) ruim(ns) pode seguir por 2 caminhos diferentes: Pode se achar em um bom emprego e ter muito sucesso mesmo não tendo estudado (porque o mercado capitalista não vê estudo, vê resultado) ou pode nunca decolar pra nada na vida. O aluno mediano, àquele aluno que nunca decolou (capitalisticamente) em nada, acaba com poucas opções. Não se sujeitando a trabalhos de cunho intelectual menor, ele vê na escola de ensino fundamental e médio uma saída. E não aguentando a pressão da vida diante do salário injusto, o professor amargo vira um ótimo repassador do paradigma que ser professor é sub-emprego.

Antes de jogarem pedras nesse pobre macaco (que também é professor (ou por ser professor)) claro que existe todo tipo de exceção. Boas ou ruins. Ser professor universitário já é diferente (na maioria das vezes (ainda)). Ser professor de 1º e 2º graus pode dar reconhecimento (na minoria das vezes (ainda)). Um mau aluno pode virar um ótimo professor. Um ótimo aluno pode virar um péssimo professor. A questão não é essa.

Todos são professores em algum momento de sua vida


A valorização geral do cargo de professor tão clamada pelos atuais docentes (como se isso fosse resolver o problema dos salários ruins) só será atingida quanto toda a sociedade compreender que todos nós somos (ou deveríamos ser) professores de todos. Que quando jogamos algo no chão, quando damos limites aos nossos filhos, quando furamos uma fila, ou quando ajudamos ao próximo, estamos sendo professores, seja de coisas ruins ou boas para a sociedade.

Todos nós temos algo de bom a ensinar. Imagino uma escola no futuro, onde todos os alunos são inspirados para serem professores. Imagino uma escola onde em um dia tenha uma aula de matemática dada por um professor para os alunos, e que em outro dia tenha uma aula de jogos eletrônicos dada pelos alunos para os professores. Uma escola em que possa receber a visita dos pais para darem aulas: de coisas da vida, de seus trabalhos, de hobbies. Por mim, todo universitário teria que dar pelo menos um mês de aulas sobre o que estuda em escolas de 2º grau. São atitudes simples, mas que provavelmente iriam mudar um pouco a mente da sociedade para a arcaica escola.

"Ser professor é mudar o mundo a 40 pessoas por hora."
Caco Simeano

6 comentários:

  1. Acredite! Já fui criticado por me ater muito ao sentido das palavras, mas este post me deixa muito confortável para tal. Ok, vamos lá...

    Creio que boas reflexões podem sair simplesmente da análise dessas sentenças:
    O que faz um PROFESSOR? O que é PROFESSAR?
    Por que a palavra PROFESSOR é tão parecida com PROFISSÃO (ou PROFISSIONAL)?

    E em outras línguas? Qual a diferença entre o/a TEACHER e o/a PROFESSOR? Ou o LEHRER e o HERR PROFESSOR (in Deutsch)?
    Há também semelhança entre PROFESSOR e PROFESSIONAL?

    Em outra linha:
    ENSINAR é igual a EDUCAR?
    ESTUDAR é igual a EDUCAR-SE?

    Um "a parte": Cristovam Buarque (grande educacionista) diz que enquanto "Ministro da Educação" foi impedido de atuar em campanhas EDUCACIONAIS que fossem para além da escola... Diante disto, questionava-se se aquele Ministério era o "Ministério da EDUCAÇÃO" ou o "Ministério DA ESCOLA"...

    Enfim... dúvidas... dúvidas...
    Tenho algumas impressões sobre, mas nem sei se consigo sistematizá-las direito... quem sabe numa conversa...

    Ademais, há uma coisa que me incomoda nesse movimento pela praticidade/experimentação do conhecimento: CONHECIMENTO se constrói via ABSTRAÇÃO!!! Lembremos que não há CONHECIMENTOS em "estado prático". Uma vez adquirido, ele pode ser APLICADO, mas sua aquisição certamente se deu via ABSTRAÇÃO. Uma escola que enfatizasse muito a PRÁTICA, poderia ser incapaz de transmitir conhecimento essencialmente teórico. Lembre-se de Sheldon Cooper que menospreza a Física EXPERIMENTAL de seu amigo Leonard.

    Escolher UMA PRÁTICA para abordar certo assunto é escolher UMA VIA dentre INFINITAS POSSÍVEIS. Frente a esse manancial de possibilidades, qual prática escolher?

    Por fim, vamos à prática: diante de todos esses seus incômodos, o que vc tanto faz que ainda não assistiu a Zeitgeist Addendum (Projeto Venus)?
    ;-)

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  2. Postei sobre educação recemente no meu blog.Lá coloquei um trecho de um texto do Rubem Alves que questiona Escolas que são Gaiolas e falam das escolas que podem ser Asas. Acredito que as Escolas Asas favorecem vôos aos alunos, um pensamento crítico e uma superação de sua condição de meros receptores de conhecimentos. Para isso é preciso uma politica de educação coerente, atualizada, professores que amem sua profissão, tenham habilidades para exercer sua função e acreditem também na educação.Grande desafio esse. Mas tenho esperança e luto para que nosso país compreenda que a maioria dos problemas poderia ser resolvido por uma simples questão de educação.

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  3. Discordo do MArcelo, pois acredito que a aplicação prática de um conhecimento não é só uma via para o aprendizado, é uma etapa, assim como a abstração. Lembrei do ciclo de aprendizagem de Kolb onde ele defende que algumas pessoas acomodam melhor o conhecimento na etapa prática, outra compreendem melhor na abstração, mas para que o conhecimento seja internalizado todos precisam passar por todas as etapas idepedente de onde comecem. Eis as etapas:experiência concreta-observação e reflexão-formação de conceitos abstratos( generalizações)-aplicações dos conceitos em novas situações.

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  4. Conhecimento se constrói via abstração SOMENTE? Com certeza não! Não há conhecimentos em um estado prático? Eu é que pergunto: Como é que se constrói o conhecimento se não pela prática!

    Exemplo simplificado para ilustração: O homem não pensou, pensou, pensou e depois só com o pensamento construiu a primeira roda! Ele deve ter visto um tronco rolar por um barranco, ou deve ter notado que sua carga que arrastava ficou mais leve quando algo 'rolou' por baixo daquilo que carregava.

    Exemplo extrapolado para ilustração: Mesmo em filosofia pura, certos conceitos são necessários para construir novos conhecimentos. Esses conceitos vêem obrigatoriamente de alguma prática ou vivência.

    Parafraseando Morpheus: "Não importa o quanto eu fale da Matrix para você; você precisa ver com seus próprios olhos".

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  5. Professor (Do latim professor, -ōris) e profissão (Do latim professĭo, -ōnis) não têm a mesma origem semântica. Olhar a origem das palavras é um ponto interessante para uma análise, mas se fazemos muito isso, estamos mais olhando para o signo da coisa do que para a coisa em si! Não sei se entendi sua colocação sobre profissional.

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  6. http://www.slideshare.net/luisguggen/rafael-reinehr-ivan-illich-sociedade-desescolarizada-o-retorno
    ...vê só isso!
    ;-)

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